Um pulo em Paris

Propagação de variante brasileira na Guiana Francesa aciona plano de emergência em hospitais

Restrições de viagem e testes para passageiros que chegam na França vindos da Guiana Francesa
Restrições de viagem e testes para passageiros que chegam na França vindos da Guiana Francesa AFP - JODY AMIET

A França suspendeu até a zero hora de 19 de abril, próxima segunda-feira, os voos provenientes do Brasil temendo a importação de variantes brasileiras do coronavírus. Se depender de epidemiologistas e políticos de oposição, o bloqueio das ligações aéreas com o Brasil será prolongado.

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Na terça-feira (13), quando anunciou a suspensão temporária dos voos, o governo francês declarou que precisava de tempo para instaurar uma frequência de voos eventualmente mais esporádica com o Brasil e também organizar as condições de isolamento dos passageiros por dez a 15 dias na chegada à França. 

Porém, desde então, a propagação da variante de Manaus na Guiana Francesa, vizinha do Amapá, só fez aumentar a preocupação dos franceses. A P1 já é responsável por 80% das contaminações no território ultramarino. Vendo as imagens dos hospitais no Brasil superlotados de pacientes com essa cepa mais agressiva, e a situação se agravando na Guiana Francesa, os franceses da metrópole ficam apavorados. 

Em quatro semanas, houve uma explosão de infecções causadas pela cepa de Manaus na Guiana Francesa. Ontem, às pressas, as autoridades anunciaram controles mais rígidos no desembarque em Paris dos passageiros provenientes de Caiena, a capital. Só 5% da população local foi vacinada contra a Covid-19. A região representa potencialmente mais um foco de exportação da variante brasileira para a França metropolitana. Um plano de emergência nos hospitais locais entrou em vigor nesta quinta-feira (15), diante de um provável afluxo de pacientes com a forma grave da doença nos próximos dias. 

Por enquanto, as cidades mais afetadas pela cepa de Manaus são a capital Caiena, Kourou, onde fica o centro espacial, e Savanas, no litoral noroeste, portanto relativamente distantes de São Jorge do Oiapoque, o ponto mais próximo de passagem com o Amapá. 

Muitos apontaram a incoerência em manter os voos entre Paris e Caiena e consideram que a decisão relativa ao Brasil foi principalmente política. A oposição conservadora e a extrema direita continuam exigindo a suspensão de todas as ligações aéreas com os países sul-americanos onde a variante brasileira se tornou predominante. Para os opositores do presidente Emmanuel Macron, o isolamento do Brasil chegou tarde.

Hidroxicloroquina provoca risos na Assembleia Francesa

Esta semana, o uso da hidroxicloroquina contra a Covid-19 no Brasil provocou gargalhadas no Parlamento francês. Na terça-feira (13), quando o primeiro-ministro Jean Castex anunciou a suspensão dos voos provenientes do Brasil, um deputado francês do partido conservador Republicanos, Patrick Hetzel, criticou a adoção tardia da medida e afirmou que o governo não sabia combater a epidemia. O primeiro-ministro reagiu rápido e lembrou no plenário que esse mesmo deputado tinha recomendado a utilização da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19, remédio que dezenas de estudos científicos internacionais demonstraram não ter a menor eficácia no combate ao coronavírus, além de ser tóxico para o fígado. 

O primeiro-ministro ridicularizou o parlamentar ao dizer: “Tem uma coisa que não fizemos: seguir suas recomendações". "O senhor escreveu ao presidente da República para aconselhar a ele que prescrevesse hidroxicloroquina. O Brasil é o país que mais prescreveu essa substância" e olhem no que deu. Uma parte do plenário aplaudiu Castex e a outra caiu na gargalhada. 

Desde março do ano passado, a França proíbe oficialmente a utilização da hidroxicloroquina no tratamento da Covid-19 nos hospitais.

Portugal restabelece voos com o Brasil

Portugal decidiu encerrar nesta sexta-feira (16) a suspensão de voos com o Reino Unido e o Brasil que vigorava desde o final de janeiro. Algumas "viagens essenciais" serão autorizadas.

Portugal continuará exigindo que os viajantes procedentes de países com uma taxa de incidência de coronavírus superior a 500 casos para cada 100.000 habitantes cumpram uma quarentena de 14 dias em sua chegada. Entre estes países estão Brasil, África do Sul, França e Holanda. A quarentena de duas semanas é uma medida dissuasiva para um viajante que não tenha conhecidos em Portugal e não disponha desse tempo para uma escala.

Poucos países no mundo continuam aceitando a entrada de brasileiros. O país está cada vez mais isolado e sem perspectivas de controlar a epidemia.

Negacionismo de Bolsonaro destrói imagem do Brasil

A revista francesa Le Point, de centro-direita, publicou um editorial nesta semana dizendo que a política negacionista de Bolsonaro está arruinando o Brasil. O editorial chamou o presidente brasileiro de "irresponsável, incompetente e incapaz" de dirigir o país. 

Ontem, em uma audiência do embaixador brasileiro na União Europeia, Marcos Galvão, com deputados do Parlamento Europeu, em Bruxelas, o eurodeputado espanhol Miguel Urbán Crespo, cofundador do partido de esquerda Podemos, disse que “por omissão, a necropolítica de Bolsonaro significa um crime contra o povo brasileiro”. Em vez de declarar guerra à pobreza, Bolsonaro declarou guerra aos pobres, guerra à ciência, à medicina, ao senso comum e à vida", condenou o eurodeputado.

O Brasil se isola cada vez mais com essa política.

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