TGV: Trem de alta velocidade francês completa 40 anos e se reinventa em modelo mais ecológico

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O presidente francês, Emmanuel Macron, fala em frente a uma réplica em tamanho real do próximo trem de alta velocidade da companhia nacional SNCF na estação Gare de Lyon, em Paris. 17/09/2021
O presidente francês, Emmanuel Macron, fala em frente a uma réplica em tamanho real do próximo trem de alta velocidade da companhia nacional SNCF na estação Gare de Lyon, em Paris. 17/09/2021 AP - Michel Euler

O trem de alta velocidade francês, conhecido pelas iniciais TGV, completa 40 anos neste mês de setembro, com 3 bilhões de passageiros transportados em quatro décadas. A companhia ferroviária SNCF aproveitou a data comemorativa para apresentar ao público, nesta sexta-feira (17), uma maquete em tamanho real do "TGV M", como vai se chamar a versão modernizada do trem-bala que entrará em circulação em 2024.

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O TGV começou a circular na França em 22 de setembro de 1981, quando a primeira linha entre Paris e Lyon (a 422 km da capital) foi inaugurada pelo então presidente socialista François Mitterrand. A companhia ferroviária SNCF decidiu antecipar o aniversário em alguns dias para exibir a maquete do "TGV M" durante a Jornada do Patrimônio, o evento cultural previsto neste fim de semana, no qual os franceses visitam os monumentos históricos do país durante dois dias de portas abertas. Afinal, o trem-bala faz parte do patrimônio nacional. 

A maquete do "TGV M", de cor branca, foi inaugurada nesta manhã pelo presidente Emmanuel Macron na Gare de Lyon, em Paris. Num breve discurso, Macron lembrou que o trem de alta velocidade representa "um orgulho industrial para o país, histórico e também humano". Os ferroviários vibram com cada avanço de tecnologia conquistado pela SNCF.

As principais novidades do "TGV M" são uma capacidade maior de passageiros, mais conforto interno, um custo de produção menor – 20% mais barato para venda – e melhorias de aerodinâmica que farão a nova locomotiva economizar 20% de energia. A velocidade não irá mudar em relação às máquinas mais recentes, que circulam a 320 km/hora.

Quarta rede de alta velocidade do mundo

Atualmente, a França tem a quarta maior rede ferroviária de alta velocidade do mundo, totalizando 2.700 km. Mas fica atrás da China, da Espanha e do Japão, que desenvolveram muito esse setor nos últimos anos. O trem rápido serve dezenas de cidades, em todas as regiões francesas, e vai também ao exterior, até Barcelona, Frankfurt, Bruxelas e Genebra, entre outras localidades. 

A primeira linha do TGV, entre Paris e Lyon, era feita por um trem-bala cor de laranja, com um bico estranho e pontudo que lembra demais as máscaras do tipo PFF2 (ou N95) usadas contra a Covid-19. O engenheiro que concebeu o design disse que o modelo era inspirado num Porsche da mesma cor. Na época, a viagem de carro da capital até a cidade do sudeste da França levava mais 6 horas pela rodovia. O primeiro trem rápido reduziu esse tempo para 2h40. Hoje, o TGV faz esse trajeto em 1h49. 

Em 2007, o trem-bala francês bateu o recorde mundial de velocidade, 574,8 km/h, durante testes da nova ferrovia entre Paris e Estrasburgo, no leste. Até hoje, esse momento é relembrado como uma proeza pelos técnicos e engenheiros da companhia. Muitos vivem a profissão como uma paixão que se transmite de pai para filho. 

O trem é um transporte extremamente popular entre os franceses, algo que faz parte do cotidiano das pessoas. Eles dão preferência ao avião para trajetos realmente distantes. Viajar de Paris para Marselha, a 775 km da capital, em 3 horas de trem rápido é muito mais confortável do que 9 horas dirigindo um carro ou enfrentar o ritual de espera e controles nos aeroportos. O trem é um meio de transporte acessível, prático, chega até o centro das cidades e também é mais ecológico. 

Em 40 anos de existência do trem de alta velocidade, muita gente mudou das grandes cidades para morar a 200 ou 300 km do local de trabalho, com a possibilidade de usar diariamente esse transporte de qualidade. Existem franceses que pegam o TGV todos os dias para trabalhar. Com a pandemia e a possibilidade de fazer dois ou mais dias de trabalho remoto por semana, muitas famílias trocaram as grandes cidades por uma casa mais próxima da natureza e a garantia do transporte rápido da SNCF nos dias de trabalho presencial.

Preços acessíveis

Há alguns anos, a companhia criou uma gama de TGVs a preços baixos chamada Ouigo. É possível comprar um bilhete Paris-Marselha por apenas € 16, cerca de R$ 100, dependendo do tempo de antecedência da reserva e do horário escolhido. Nos horários de maior procura, as passagens são mais caras, mas a política da empresa é tornar o trem rápido um transporte acessível para todos os bolsos.

Durante o ano de 2020, o tráfego de trens caiu à metade por causa da pandemia. Foi um momento difícil para a SNCF, que sofreu um prejuízo de € 4,8 bilhões só com a perda de faturamento das linhas de alta velocidade. Mas o Estado francês, que detém o capital da empresa, absorveu a dívida e ainda reinveste. Especialistas dizem que sem subvenção pública, é difícil manter um setor ferroviário de qualidade. Por isso, o trem de alta velocidade continua sendo uma realidade de países ricos. 

A SNCF vem se modernizando, enxugando custos e vai enfrentar concorrência externa a partir deste ano. A italiana Thello (Trenitalia) diz que vai explorar a linha entre Paris-Lyon-Milão "antes do final do ano". A espanhola Renfe também se prepara para operar no território francês. Outras empresas estão de olho no mercado. Com o apego dos franceses pelo transporte ferroviário, há espaço para a concorrência.

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