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Mali/Golpe de Estado Militar

Quem é o coronel Assimi Goita, o novo homem forte do Mali ?

Coronel Assimi Goita, presidente do Comité Nacional para a Salvação do Povo - CNSP - em declarações à imprensa em Bamako a 19 de Agosto, pouco depois da demissão forçada do 
 Presidente Ibrahim Boubakar Keita, do governo e da dissolução do parlamento.
Coronel Assimi Goita, presidente do Comité Nacional para a Salvação do Povo - CNSP - em declarações à imprensa em Bamako a 19 de Agosto, pouco depois da demissão forçada do Presidente Ibrahim Boubakar Keita, do governo e da dissolução do parlamento. © AFP
8 min

Coronel do exército, Assimi Goita, liderou o golpe de Estado militar de terça-feira (18/08) que forçou o Presidente Ibrahim Boubakar Keita a demitir-se com o seu governo e dissolver o parlamento, mas apesar da promesa de uma transição política civil e de eleições livres, a comunidade internacional critica de forma unânime o golpe de Estado e apela ao restabelecimento das instituições democráticas.

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O coronel Assimi Goita, com 37 anos de idade, conhecido pelo pseudónimo "Assou", é casado e pai de três filhos e a sua biografia descreve-o como um homem rigoroso, tenaz, adepto dos desafios e um profissional apto ao comando.

Em 2014 integrou as forças especiais e em 2015 coordenou as operações especiais do ministério da defesa, após o atentado contra o hotel Radisson Blu em Bamako.

Em 2018 foi nomeado chefe das forças especiais malianas, instaladas no centro e norte do Mali, palco desde 2015 de violências jihadistas e intercomunitárias e esteve em missão exterior em Darfur, tendo sido, segundo um próximo, o instigador do golpe de Estado militar de 18 de Agosto. 

Filho de um oficial do exército, formou-se tal como o seu pai, no pritaneu militar de Kati, a 15 kms de Bamako, o liceu da defesa nacional, de onde saíram as élites militares malianas e é diplomado pela Escola Militar de Koulikoro, a cerca de 50 kms da capital, onde se formou em armas blindadas e cavalaria e a partir de 2002 foi enviado para o norte do Mali: Gao, Kidal, Ménaka, Tessalit e Tombuctu, onde lutou designadamente contra os jihadistas vindos da Argélia..

A sua biografia indica que recebeu formação em França, Alemanha, Gabão e nos Estados Unidos, sendo que vários jornais africanos avançam que Assimi Goita também foi formado por agentes da CIA.

Assimi Goita, apareceu na televisão pública do Mali, na noite de terça para quarta-feira aquando do anúncio do golpe de Estado, mas não se pronunciou e nesta quarta-feira, 19 de Agosto, depois de se ter encontrado com altos funcionários no Ministério da Defesa, apresentou-se como presidente do Comité Nacional para a Salvação do Povo - CNSP -  a junta militar que protagonizou o golpe de Estado na terça-feira, 18 de Agosto, afirmando que o objectivo é uma transição política civil para preparar eleições gerais livres num prazo razoável e estabilizar o país.

Assimi Goita, afirmou que o Mali está "numa situação de crise sociopolítica e de segurança" e garantiu "não temos mais o direito de errar".

A oposição, liderada pelo M5 - RPF ou Movimento 5 de Junho - Reunião das Forças Patrióticas, garante em comunicado "tomar nota do compromisso do CNSP" e indicou que irá cooperar com a junta militar no estabelecimento de um roteiro "para iniciar uma transição política civil" com o CNSP e as forças vivas do país e apela o povo maliano a festejar a vitória esta sexta-feira, 21 de Agosto.

O porta-voz do CNSPcoronel-major Ismaël Wagué, chefe de estado maior adjunto da força aérea maliana, foi quem anunciou na televisão pública maliana o golpe de Estado na quarta-feira, 19 de Agosto, pouco depois da demissão do Presidente IBK "decidimos assumir as nossas responsabilidades perante o povo e a História" e convidou a sociedade civil e os partidos políticos a juntarem-se ao Comité Nacional para a Salvação do Povo, para juntos prepararem a transição política e a organização de eleições gerais num prazo razoável.

Ismaël Wagué apelou a "população à calma e ao fim dos actos de vandalismo e de destruição de edifícios públicos" e prometeu tomar "medidas contra todos os que em uniforme foram apanhados em flagrente delito".

Outro líder do golpe de Estado militar de 18 de Agosto no quartel de Kati, foi o coronel Sadio Camará, que se encontrava em treino militar na Rússia desde Janeiro e regressou a Bamako em licença de um mês, cerca de 15 dias antes.

Comunidade internacional condenação unânime

Mas estas declarações não apaziguaram a condenação unânime da comunidade internacional ao golpe de Estado militar, com destaque para a ONUUnião Africana, União Europeia e Estados Unidos, que exigem a reposição da ordem constitucional e do estado de direito e a libertação imediata do Presidente Ibrahim Boubakar Keita.

Tal como a CEDEAO reunida em video conferência esta quinta-feira, 20 de Agosto, exige a reposição do Presidente IBK e a libertação de todos os detidos desde 18 de Agosto, mas desde logo condenou o motim  e anunciou o encerramento das fronteiras com o Mali e o congelamento das trocas financeiras entre os seus 15 países membros e o Mali.

O mesmo tom na condenação foi exprimido pelo Conselho de Segurança da ONU, que também exortou os militares a retornarem aos quartéis, enfatizando a necessidade urgente de restabelecer o Estado de direito e a ordem constitucional no Mali.

Em França, antiga potência colonial e que mantém um forte dispositivo militar no Mali, para combater o jihadismo no Sahel - com cerca de 5.000 homens da operação Barkhane - o Presidente Emmanuel Macron pediu a restituição do poder aos civis.

Nos próximos dias deverá ficar mais claro o enigma sobre o futuro de Mali e designadamente a correlação de forças entre os militares golpistas e os que se mantêm fiéis ao Presidente deposto.

Por outro lado, como é que os militares vão realizar eleições livres e credíveis, quando são simultaneamente juízes e árbritos, dado que o relatório da ONU de 30 de Abril denuncia a "multiplicação de execuções sumárias e desaparecimentos forçados ou involuntários" durante operações militares e um mais recente relatório ainda não oficialmente divulgado, denuncia o papel de obstrução ao Acordo de Paz de 2015, protagonizado por altas patentes do exército e dos serviços de segurança do Estado.

Há meses que o Mali enfrenta protestos populares contra a crise económica, a corrupção, a insegurança e a violência dos grupos jihadistas, uma situação de caos que persiste desde o último golpe de Estado militar, em 2012, que derrubou o Presidente Amadou Toumani Touré.

Esta crise política, económica e de segurança teve a sua origem no norte do Mali, com o regresso progressivo da Líbia dos combatentes independentistas tuaregues, após a queda de Mouammar Kadhafi.

A estes juntaram-se grupos jihadistas, que tornaram o norte do país muito instável, aproximando-se cada vez mais de Bamako e se expandiram a partir da zona das três fronteiras ao Niger e Burkina Faso vizinhos. 

A este cenário caótico, junta-se a pandemia de Covid-19 .

 

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