Chade

O Chade mergulhado na incerteza

Em N'djamena, carros de assalto estacionaram junto do palácio presidencial chadiano no dia 20 de Abril de 2021.
Em N'djamena, carros de assalto estacionaram junto do palácio presidencial chadiano no dia 20 de Abril de 2021. REUTERS - STRINGER

Um dia depois de ser anunciada a morte do Presidente Idriss Déby que, segundo o exército chadiano, sucumbiu a ferimentos após ser baleado quando estava a combater contra rebeldes no norte do país no passado fim-de-semana, o Chade continua mergulhado na incerteza.

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Após 30 anos com Idriss Déby no poder, os chadianos vêem agora o seu destino nas mãos de Mahamat Déby, filho do falecido Presidente, que aos 37 anos assume desde ontem a liderança interina do poder sustentado por um Conselho Militar de Transição formado por 15 generais durante os próximos 18 meses.

Apesar de se constatar um aparente regresso a uma actividade normal em vários pontos do país, nomeadamente com a reabertura das fronteiras, e apesar também do novo homem forte do Chade, Mahamat Déby, declarar ainda ontem que o exército pretende entregar o poder a um governo civil e organizar eleições livres e democráticas dentro de um ano e meio, o tom é ofensivo entre os adversários do poder instalado.

Os rebeldes da Frente para a Alternância e a Concórdia no Chade (FACT) que conduzem há uma dezena de dias uma ofensiva a partir da Líbia contra o regime de N'Djamena, rejeitaram firmemente o Conselho Militar e prometeram continuar a sua operação depois das exéquias de Idriss Déby, na sexta-feira.

Quanto aos principais partidos de oposição, eles denunciaram hoje o que qualificaram de "golpe de Estado institucional" e apelaram à "instauração de uma transição dirigida por civis".

A nível internacional, predomina a expectativa. Em comunicado, o chefe da diplomacia europeia Josep Borrell avisou que "a transição anunciada deve der limitada, desenrolar-se de forma pacífica, no respeito dos Direitos Humanos e das liberdades fundamentais e deve permitir a organização de novas eleições inclusivas".

A França que hoje confirmou a presença do seu Presidente no funeral de Idriss Déby dentro de dois dias, também opta pela prudência. Depois de o Eliseu lamentar ontem a perda de um "amigo corajoso", o chefe da diplomacia francesa, Jean-Yves le Drian, apelou a uma transição militar com "duração limitada" e que esta última resulte na instalação de "um governo civil e inclusivo".

Noutro aspecto, o governo francês também expressou a sua preocupação ao perder aquele que era considerado um dos seus principais apoios no combate ao jihadismo no Sahel. Em declarações públicas, a Ministra francesa da Defesa, Florence Parly, considerou que "A França perde um aliado essencial na luta contra o terrorismo no Sahel. O presidente Déby tinha, nomeadamente, tomado a decisão de mobilizar o batalhão chadiano, uma unidade de 1 200 homens, na zona das 3 fronteiras. Não duvido que possamos prosseguir este processo que tinha sido iniciado com coragem de há vários anos a esta parte."

Ministra francesa da Defesa, Florence Parly

Por seu turno, em comunicado, a Human Rights Watch considerou que "as consequências potencialmente explosivas da morte do Presidente Déby não podem ser subestimadas, tanto para o futuro do Chade como de toda a região", a ONG de defesa dos Direitos Humanos não deixando de lamentar que "os ocidentais tenham fechado os olhos durante anos perante os atropelos à liberdades fundamentais no Chade em nome da luta contra o terrorismo".

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