CAN 2010 Angola

Impressões de uma viagem a Angola

Estádio Ombaka, construído num campo isolado entre Benguela e Lobito.
Estádio Ombaka, construído num campo isolado entre Benguela e Lobito. Pierre René-Worms

As primeiras impressões de quem aterra em Luanda é a de um país em obras. O próprio aeroporto ainda a dar os últimos retoques para o movimento incessante que teve até ao final do CAN, uma vez que o aeroporto 4 de Fevereiro é para a grande maioria dos estrangeiros, a porta de entrada no país e esta porta ainda não mostrava a sua cara mais bonita.

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Depois a cidade, que é um estaleiro quase permanente desde há alguns anos e o CAN nada alterou neste cenário. Trânsito dificil, mas agora, em relação ao passado recente, mais fluído com as vias principais alargadas e a abertura de vias rápidas para acesso ao novo estádio da capital que ajudam a desafogar o tráfego luandense.

Quanto aos condutores e peões angolanos, passo-me de comentários exceptuando um : em Luanda, quer sejam automobilistas, motociclistas ou peões, são todos um pouco heróis anónimos de um dia à dia de circulação difícil, perigosa e muito fatigante.

Depois, sempre a sensação de um país a duas velocidades, o país dos estádios novos, verdadeiros mundos à parte, dos novos centros de conferências, onde tudo funciona e o outro país, o país real com os problemas e dificuldades de sempre que não se eclipsaram com o CAN.

Esta situação não foi apenas visível na capital, onde o estádio 11 de Novembro foi construido na Camama, a cerca de 40 kilómetros do centro de Luanda. Também em Benguela, onde estivemos alguns dias para seguir os primeiros jogos da selecção moçambicana, o Estádio Ombaka foi construído no meio do nada, desligado da vida urbana das duas cidades próximas, Benguela e Lobito.

Em ambas as situações, permanece a questão, o que se fará destas infraestruturas no futuro ? Nas nossas reportagens, apenas soubemos que será criada uma empresa pública para os gerir, quanto à sua utilização, tudo em suspenso, talvez porque o país tem outras prioridades para o pós CAN.

A particularidade dos estádios novos, tem a ver com outra particularidade, a da comunidade chinesa muito presente em Angola. Os estádios novos são o resultado de uma forte cooperação sino-angolana, mas, tecnicamente tudo é chinês, até os técnicos que operam com todas as tecnologias aplicadas nos novos complexos desportivos.

Mas a comunidade chinesa não está integrada no meio africano, tem bairros à parte, auto-suficientes em tudo e longe dos centros urbanos. São poucos os chineses que se aventuram no seio da população local, nos meios angolanos ou mesmo nos locais onde as outras comunidades estrangeiras se encontram.

Outro momento importante para Angola, neste Janeiro de 2010, foi a aprovação na Assembleia Nacional da nova Constituição do país, aqui, sem entrar nas questões políticas à volta da nova lei fundamental, apenas para recordar o encontro com o Forum das Autoridades Tradicionais, no seio do qual se reunem os Sobas, herdeiros das antigas linhagens dos diversos grupos étnicos que compõem o povo angolano.

O novo texto constitucional, no seu Artigo 223, « ...reconhece o estatuto, o papel e as funções das instituições do poder tradicional constituídas de acordo com o direito consuetudinário e que não contrariam a Constituição ».

A sua influência e importância é sobretudo visível nos meios rurais, muito afastados dos meios urbanos, onde tudo falta e acaba por ser o Soba a ter o papel de liderança para tentar melhorar as condições de vida dessas populações, mas face à Administração, o papel do Soba é muitas vezes visto como o « pedinte » do interior que vai a Luanda obter benesses.

O que pode faz alterar este cenário de um país e um povo em mudança, é a imensa simpatia dos angolanos e angolanas, que não se poupam a esforços para ajudar ou simplesmente para estar à volta de uma mesa, a beber uma « Cuca » e a discutir o futuro do país de África ou do mundo.

Como alguém diria em bom português, estive com a minha gente !

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