África do Sul /HIV

Comunidade científica sul-africana investe na pesquisa de vacinas contra a Aids

Centro de tratamento para doentes de AIDS, na periferia da Cidade do Cabo, na África do Sul.
Centro de tratamento para doentes de AIDS, na periferia da Cidade do Cabo, na África do Sul. Foto: Elcio Ramalho/RFI

Na Universidade da Cidade do Cabo, um grupo de pesquisadores se dedica há vários anos a estudar candidatas potenciais a vacinas, e duas delas já foram selecionadas para entrar na fase de testes clínicos. Os trabalhos estão focalizados para combater um subtipo especifico do HIV, o C, o mais expandido na África Austral.

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Com cerca de 5 milhões e 700 mil pessoas infectadas, segundo estimativas oficiais, o que representa mais de 10 % do total da população, a África do Sul é um dos países mais atingidos pelo vírus HIV no mundo. No país há cerca de 1 milhão e meio de órfãos por causa da AIDS.

 Para combater essa verdadeira tragédia que atinge principalmente os moradores das áreas mais carentes, a comunidade científica sul africana tem multiplicado seus esforços para contribuir na melhoria do tratamento e estudar formas de diminuir a transmissão do vírus e avançar nas investigações sobre uma possível vacina contra o vírus HIV.

Na Universidade da Cidade do Cabo, um grupo de pesquisadores se dedica há vários anos a estudar candidatas potenciais a vacinas, e duas delas já foram selecionadas para entrar na fase de testes clínicos. Os trabalhos estão focalizados para combater um subtipo especifico do HIV, o C, o mais expandido na África Austral.

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Em julho do ano passado, durante uma conferência internacional sobre AIDS na Cidade do Cabo foi lançada oficialmente a primeira fase de uma vacina que esta sendo testada em 48 voluntários; 12 nos Estados Unidos e 36 na África do Sul. Além de otimistas, os cientistas sul africanos estão orgulhosos, afinal, pela primeira vez, uma candidata à vacina contra o HIV criada em um país em desenvolvimento está sendo testada nos Estados Unidos.

A pesquisadora Linda Gail-Bakker, uma das mais respeitadas especialistas do país traduz o sentimento dos pesquisadores. “Estamos muito orgulhosos por sermos o primeiro país africano a criar uma vacina que está sendo considerada como promissora o suficiente para ser testada em humanos e por isso estamos muito confiantes. Estamos muito otimistas especialmente após os resultados dos testes com uma vacina na Tailândia. É uma experiência com características similares e alguns produtos no estudo tailandês também são usados por nós e desenvolvidos aqui pela Universidade da Cidade do Cabo”, diz.

Lentidão e descaso

Nos últimos anos, o descaso do governo para combater a AIDS foi flagrante e alvo de muitas críticas. Durante a gestão do ex-presidente Thabo Mbeki, por exemplo, que governou o país por 9 anos, além da falta de programas para combater a epidemia, sua ministra da Saúde ganhou o apelido de "beterraba" ao defender uma alimentação com frutas e legumes para combater o vírus ao invés de medicamentos anti retrovirais. Outra declaração polêmica foi atribuída ao presidente Jacob Zuma  que teria declarado que um banho após a relação sexual evitava a transmissão do vírus.

A cientista Linda-Gail Baker foi premiada pelos suas pesquisas sobre AIDS e Tuberculose na África do Sul.
A cientista Linda-Gail Baker foi premiada pelos suas pesquisas sobre AIDS e Tuberculose na África do Sul. Foto: Elcio Ramalho/RFI

A lentidão da ação governamental e aspectos culturais como a tradição da poligamia em várias etnias do país dificultam o trabalho de combate à doença. Por outro lado, o país exibe resultados concretos de estudos e iniciativas bem sucedidas como a do Hospital público Baragwanath em Soweto, na periferia de Joanesburgo, que desenvolve um programa na Unidade Pré-natal dedicada a prevenção da transmissão de AIDS de mulheres grávidas para seus filhos.

No hospital, 33% das gestantes que procuram o serviço são portadores do HIV.  Por ano, cerca de 10 mil futuras mães recebem tratamento para evitar a transmissão do vírus para seus bebês.

Guy de Bruyn, da Unidade de Pesquisa Neo natal explica como conseguiram salvar a vida de muitos bebês.

“Duas coisas importantes: a primeira é de tentar melhorar o atendimento às mulheres grávidas, um dos elementos do nosso trabalho, o que significa garantir acesso ao tratamento com anti-retrovirais para as mulheres, mesmo durante a gestação. Este é um dos aspectos do trabalho, o de evitar a transmissão de HIV das mães para os filhos”, diz  o pesquisador.

Segundo Guy de Bruyn, o  trabalho desenvolvido por uma equipe de pesquisadores e cujos resultados foram divulgados dois anos atrás, revelou diferenças na sobrevivência de crianças que recebem tratamento com anti-retrovirais imediatamente após o diagnóstico. Em média o acréscimo foi de 12 semanas de sobrevida após o nascimento, comparadas com as que só recebem tratamento de acordo com as diretivas tradicionais, que aguardam atingir um número mínimo de CD4 no organismo.

"Eles (os pesquisadores) descobriram que as crianças que começavam o tratamento mais cedo tinham mais chances de sobrevivência. As que começavam mais tarde tinham uma taxa de mortalidade 4 vezes maior. E esses foram os resultados do impacto dos testes aqui na pediatria”, afirma.

Conselheiras de comunidades

No Centro de Saúde Comunitário Hanan, na periferia da Cidade do Cabo, funciona uma unidade de tratamento para os pacientes com HIV. O ambulatório vive permanentemente lotado com homens e mulheres atrás de tratamento com anti retrovirais oferecidos pelo governo e também para realizar testes. Além de médicos e enfermeiros, a unidade conta com o reforço de um grupo de conselheiras, mulheres soropositivas recrutadas para trabalhar junto à comunidade.

Lettie Semaru (à esq.) e Nomsa Ngwenia (à dir.) se tornaram consultoras para ajudar outros portadores do HIV a seguir o tratamento.
Lettie Semaru (à esq.) e Nomsa Ngwenia (à dir.) se tornaram consultoras para ajudar outros portadores do HIV a seguir o tratamento. Foto: Elcio Ramalho/RFI

Nomsa Ngwenia, de 33 anos, descobriu o vírus da Aids há três anos. Foi uma surpresa. “Tive problemas estomacais, diarréia e vômitos. Tive que vir à clínica, e fizeram o teste. No começo foi triste", lembra.

" Mas tive ajuda das conselheiras aqui do centro de saúde e elas me ajudaram muito. E continuo em tratamento. Foi algo inesperado mas agora convivo com a doença. Hoje sou forte. Tenho que ser porque tenho 3 filhos.” diz.

Outra conselheira formada pelo Centro foi Lettie Semaru, de 45 anos e mãe de dois filhos. Ela decidiu integrar a equipe de trabalho de conscientização e orientação de outros pacientes em 2004, um ano depois de ter descoberto que era portadora do vírus.

“Há muita discriminação e estigma e é preciso saber lidar com isso. Eu decidi ser consultora para dar exemplo para outras pessoas. E ser um exemplo de que mesmo sendo HIV positiva, há vida após a descoberta do vírus”, diz. 
 

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