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Zimbabué

Harare vira uma página de 37 anos

O ex vice-presidente Emmerson Mnangagwa à sua chegada a Harare neste 22 de Novembro.
O ex vice-presidente Emmerson Mnangagwa à sua chegada a Harare neste 22 de Novembro. REUTERS/Mike Hutchings
Texto por: RFI
4 min

Ao cabo de muita pressão sobretudo a nível interno, com a população a descer massivamente à rua para reclamar a sua saída do poder, o Presidente Robert Mugabe, 93 anos, anunciou ontem a sua demissão após 37 anos no poder, uma decisão que abre agora a porta a uma nova era para este país flagelado há vários anos por uma grave crise económica, uma nova era a ser delineada pelo ex vice-presidente Emmerson Mnangagwa que toma posse Sexta-feira como Presidente interino.

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Ao cabo de cerca de uma semana de suspense, após o exército ter tomado o poder na noite de 14 a 15 de Novembro, numa operação que desmentiram tratar-se de um golpe de Estado, o alívio dentro e fora do país era visível. Ontem as ruas de Harare, a capital, encheram-se espontaneamente de populares que celebraram a decisão de Mugabe, "um momento histórico" do ponto de vista de António Simões, português radicado há mais de 20 anos naquele país, que refere ainda que passada a euforia, os zimbabueanos retomaram hoje os seus afazeres habituais na serenidade.

António Simões, português radicado no Zimbabué há mais de 20 anos

Face a este cenário, os Presidentes da África do Sul e de Angola que ontem tinham sido mandatados pela SADC para se deslocarem hoje a Harare com vista a tentar encontrar uma saída de crise juntamente com os zimbabueanos desistiram do intento. A União Africana que, num primeiro tempo, tinha dado conta da sua preocupação perante aquilo que considerava "ter a aparência de um golpe", reviu entretanto a sua posição. A organização pan-africana saudou a decisão de Robert Mugabe "se demitir depois de uma vida ao serviço da Nação zimbabueana" e qualificou-a ainda de "acto de autêntico Estadista que apenas pode reforçar a sua herança política". Na região, nomeadamente em Moçambique, os discursos oficiais foram igualmente de regozijo, conforme relata a partir de Maputo, Orfeu Lisboa.

Orfeu Lisboa, correspondente da RFI em Maputo

Ficam doravante para trás os 37 anos de permanência no poder de Robert Mugabe. Herói da luta libertação nacional da antiga Rodésia, Mugabe converteu-se gradualmente, com o passar dos vários mandatos que acumulou consecutivamente, num chefe com modos considerados despóticos tanto no domínio dos Direitos Humanos como também em relação às suas opções económicas, a sua reforma agrária encaminhada durante os primeiros anos da década de 2000 tendo merecido numerosas crítica dentro e fora do seu país. Eis o seu retrato esboçado por Vítor Matias.

Perfil de Robert Mugabe por Vítor Matias

Neste novo cenário que se desenha para o Zimbabué, o ex-vice presidente Emmerson Mnangagwa que deve ser investido na Sexta-feira como Presidente interino do país, regressou hoje do seu exílio de um pouco mais de duas semanas na África do Sul. Exonerado por Mugabe das suas funções a 6 de Novembro por, segundo analistas, colocar em perigo o projecto do então Presidente colocar a esposa, Grace Mugabe, no poder, Mnangagwa encontra-se agora perante a delicada tarefa de conduzir o seu país rumo a eleições para o ano que vem. À sua chegada hoje a Harare, o futuro Presidente interino saudou "o início de uma nova democracia". Todavia, certos activistas no país não esquecem que o ex vice-presidente, também conhecido por "Crocodilo", foi um dos fiéis artesãos da política repressiva posta em prática pelo regime de Mugabe e receiam que se substitua um ditador por outro ditador. Eis o retrato do novo homem forte de Harare esboçado por Tiago Almeida.

Perfil do ex vice-presidente Emmerson Mnangagwa por Tiago Almeida

O destino do Zimbabué fica agora por reconstruir, os zimbabueanos esperando medidas urgentes para restabelecer a economia do país. Segundo o Banco Mundial, a taxa de pobreza ronda os 72%, a produção de riqueza está praticamente paralisada, o país enfrentando ainda a falta de divisas, uma taxa de desemprego em torno dos 90% segundo a Federação dos Sindicatos do Zimbabué, a falta de alimentos, uma prevalência da sida das mais altas do continente e o espectro da hiperinflação sempre presente. Para sustentar um possível renascimento económico, analistas destacam as riquezas minerais do país como o ouro e a platina, o sector agrícola, em particular a cultura do milho e do algodão assim como o potencial turístico deste país.

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