Uruguai/Paraíso Fiscal

Presidente do Uruguai visita a Argentina em meio à polêmica sobre os paraísos fiscais

O presidente uruguaio, José Mujica, desembarca em Buenos Aires nesta sexta-feira.
O presidente uruguaio, José Mujica, desembarca em Buenos Aires nesta sexta-feira. Reuters

O presidente uruguaio, José Mujica, visita a Argentina nesta sexta-feira, 11 de novembro, em meio à polêmica gerada durante a recente reunião do G-20 na qual o presidente da França, Nicolas Sarkozy, ao lado das presidentes de Brasil e de Argentina, classificou o Uruguai como “paraíso fiscal”. O líder francês ameaçou excluir o país da comunidade internacional. Antes da chegada de Mujica, o presidente do Banco Central do uruguai, Mario Bergara, questionou em entrevista exclusiva à RFI a acusação da França e o papel do G-20 como Polícia do mundo.

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Márcio Resende, correspondente da RFI em Buenos Aires

O presidente do Uruguai, José Mujica, chega nesta sexta-feira a Buenos Aires para inaugurar um monumento e receber o título “honoris causa” da Universidade de Lanús. Mas é provável que o líder uruguaio se refira à polêmica sobre a acusação de “paraíso fiscal” com a presidente argentina, Cristina Kirchner, que estava na reunião do G-20 na França no último dia 4.

Pouco antes da viagem Mujica disse estar disposto a ceder à Argentina e ao Brasil um acordo de troca de informação tributária se os vizinhos facilitarem a entrada de produtos uruguaios nos seus mercados. Para o presidente do Uruguai, a abertura de informações sigilosas poderia provocar uma fuga de depósitos que precisaria ser compensada no campo comercial. Mujica disse que falaria sobre o assunto em profundidade com a Argentina, o Mercosul e a Unasul.

Já o presidente do Banco Central do Uruguai, Mario Bergara, disse em entrevista exclusiva à Rádio França Internacional em Buenos Aires que a acusação da França “surpreendeu” porque há um ano está em vigência um acordo de troca de informações tributárias aprovado pelos Parlamentos dos dois países nos moldes da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE). Com certa ironia, Bergara concluiu que o presidente francês, Nicolas Sarkozy, deve ter uma lista desatualizada de “paraísos fiscais”. “Entendo que seria surpreendente que a França estivesse assinando acordos com paraísos fiscais... Talvez Sarkozy tenha pego uma lista velha. Pode ser um erro de informação”, declarou o Bergara.

Em todo o sistema bancário uruguaio, cerca de 18% dos depósitos são de estrangeiros não residentes, 15% são de argentinos e os restantes 3% dividem-se entre todos os países do mundo. Para a o presidente do Banco Central do Uruguai, se houver depósitos de franceses, deve ser um valor irrelevante.

G-20 como Polícia do mundo

Mario Bergara também questionou a autoridade do G-20 para atuar como “Polícia do mundo”. “Gera-nos desgosto que um grupo de países imponha regras. É uma atitude que beira o imperialismo que sempre criticamos. Operam como a ‘A Lei e a Ordem’ internacional. Ninguém deu autoridade aos países poderosos para impor regras, mas a história do mundo é de países que impôem regras”, questionou.

O presidente do Banco Central do Uruguai lembrou que o seu país é o latino-americano que mais combate a lavagem de dinheiro, segundo o Grupo de Ação Financeira Internacional (GAFI). E cutucou Brasil, Argentina e México, ao afirmar que “nem todos os países do G-20 podem dizer o mesmo”.

“Na década de 80, o Uruguai era uma ‘praça financeira’. O sigilo bancário tinha uma lógica de inserção regional baseada na opacidade. Mas esse não é o Uruguai de hoje. O sigilo bancário foi flexibilizado e até suspenso quando há processos de investigação de lavagem de dinheiro. O Uruguai não se insere mais só na região, mas também no mundo baseado na cooperação e na transparência”, comparou.

Segundo a oposição uruguaia, a inclusão do país na lista de “paraísos fiscais” teria sido feita pelo presidente Nicolas Sarkozy a pedido da presidente Cristina Kirchner. Mas o presidente do Banco Central do Uruguai, Mario Bergara, disse à RFI que o governo uruguaio não acredita nessa versão. “O governo uruguaio entende que nem o Brasil nem a Argentina tiveram nenhum papel nas declarações de Sarkozy”, disparou.

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