Angola/Portugal

Angola acusa Portugal de fazer “estardalhaço”

Manuel Vicente, ex-vice-presidente de Angola (imagem de arquivo).
Manuel Vicente, ex-vice-presidente de Angola (imagem de arquivo). THOS ROBINSON / GETTY IMAGES NORTH AMERICA / AFP

O ministro das Relações Exteriores de Angola afirma que enquanto o caso do antigo vice-presidente angolano não tiver um desfecho, Luanda “não se vai mexer no campo da cooperação com Lisboa”. Manuel Augusto considera que a justiça portuguesa está "politizada".

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Esta manhã, as delegações de Angola e Portugal estiveram reunidas em Abidjan, na Costa do Marfim, para analisar a cooperação entre os dois países. O encontro que juntou à mesma mesa o chefe de Estado angolano, João Lourenço, e o primeiro-ministro português, António Costa, foi dominado pela situação do antigo vice-presidente Manuel Vicente.

Em declarações à RFI e à agência de notícias Lusa, o ministro das Relações Exteriores de Angola, Manuel Augusto, referiu-se às relações entre Angola e Portugal como “excelentes”, contudo reconheceu que actualmente estão “ensombradas”, numa alusão ao processo da justiça portuguesa que visa o antigo vice-presidente de Angola.

Passamos em revista as relações entre Portugal e Angola que como sabe são excelentes. Mas ambos reconhecemos que elas estão hoje ensombradas por um caso específico que releva da actuação da justiça portuguesa. Nós respeitamos a separação de poderes, quer em Portugal quer em Angola. A única coisa que chamamos a atenção é que mesmo o poder judicial português deve ter em conta os interesses de Portugal e Angola. Há uma coisa que se chama de razão de Estado e ela se aplica, não fomos nós que inventámos.

Enquanto o poder judicial português entender que as relações entre Portugal e Angola são menos importantes do que o cumprimento deste processo na direcção que estão a levar, nós aguardaremos. O caso do senhor Manuel Vicente está politizado, porque nem pelo valor material do crime, nem pelas consequências da sua acção justifica todo esse estardalhaço. Ora se é um problema político, vamos tratá-lo politicamente. A posição de Angola é que o caso do senhor Manuel Vicente já não é um caso individual, é um caso do Estado angolano e enquanto ele não tiver um desfecho, o Estado angolano não se moverá nas acções que nós precisamos todos de cooperação com Portugal”, declarou.

Ministro das Relações Exteriores de Angola, Manuel Augusto, sobre a cooperação com Portugal

O juiz do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa enviou este mês uma carta rogatória às autoridades de Angola para que Manuel Vicente seja constituído arguido no processo da "Operação Fizz". A justiça portuguesa acusa Manuel Vicente de ter presumivelmente corrompido o procurador português Orlando Figueira para que arquivasse dois inquéritos, um deles o caso Portmill, relacionado com a alegada aquisição de um imóvel de luxo no Estoril, em Portugal.

Na semana passada, a Procuradoria-Geral da República de Angola garantiu que não recebeu qualquer carta rogatória proveniente do Tribunal Judicial da Comarca de Lisboa a pedir que o ex-vice-Presidente angolano Manuel Vicente seja constituído arguido.

O ministro da Relações Exteriores de Angola falou ainda sobre as exonerações levadas a cabo por João Lourenço, sublinhando a necessidade de o actual presidente de Angola se rodear de pessoas da sua confiança.

O Presidente José Eduardo dos Santos é o presidente do MPLA. O MPLA é o partido que suporta o governo, portanto seria impensável qualquer acção do governo contra o presidente do partido ou tudo que lhe está associado.

Naturalmente há um novo Presidente, há uma nova equipa. Dentro do MPLA há uma nova equipa. Se vir no governo actual, mais de cinquenta por cento vêm do governo anterior, por isso, não há aqui cortes.

Se o Presidente quer fazer uma mudança na Sonangol, não tinha outra pessoa a tirar que não fosse quem estivesse a dirigir. Quem estava a dirigir era a engenheira Isabel, se tivesse outra pessoa a dirigir era essa outra pessoa”, concluiu.

Ministro das Relações Exteriores de Angola, Manuel Augusto, pronuncia-se sobre as exonerações

A entrevista foi realizada pela nossa enviada especial a Abidjan, Cristiana Soares.

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