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Dilma sobre Petrobras: “Lutarei até o fim para demonstrar que não estou ligada”

Dilma em entrevista à France Media Monde no Palácio do Planalto.
Dilma em entrevista à France Media Monde no Palácio do Planalto. Reprodução

Em entrevista exclusiva ao canal de TV France 24, que pertende ao grupo France Media Monde, do qual a RFI faz parte, a presidente brasileira Dilma Rousseff disse que lutará “até o fim” para provar que não tem participação no escândalo de corrupção da Petrobras. Questionada se estaria pronta a arcar com as consequências caso seja provada sua ligação com o escândalo, Dilma foi incisiva: “Eu não estou ligada. Não respondo a esta questão porque não estou ligada", disse a presidente. "Lutarei até o fim para demonstrar que não estou ligada. Eu sei o que eu faço... Tenho uma história por trás de mim neste sentido. Nunca tive uma única acusação contra mim por qualquer malfeito.”

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Ouça os principais trechos da entrevista:

Dilma recebeu em Brasília o repórter francês Marc Perelman, do canal France24. A entrevista foi veiculada nesta segunda-feira (8) na França. Na conversa de cerca de 40 minutos, eles falaram sobre as relações da União Europeia com o Mercosul, o caso de espionagem do governo norte-americano, Cuba, ajuste fiscal e corrupção na Fifa e na Petrobras, entre outros temas. Confira os principais trechos da entrevista:

Escândalo na Petrobras

“Ele diz respeito a funcionários da Petrobras que se articularam com empresas e partidos para obter vantagens. Não se articularam com todas as empresas nem, quando se articularam com partidos, com todos os integrantes dos partidos. Todas as campanhas feitas no Brasil têm contribuições de todas essas empresas, não tem por que só a minha ser destacada. Quando isso ocorre, trata-se de uma atividade política: estão tentando envolver minha campanha nisso."

Dinheiro da Petrobras para campanha eleitoral

"Não há nenhum indício a esse respeito que prove esse fato, não só em 2010 como em 2014. Todos os candidatos que concorreram comigo receberam dinheiro de todas as empresas de forma legal. A Petrobras teve, de fato, um grande escândalo. No início do meu governo, essas pessoas que hoje estão presas, eu as demiti. Além disso, é muito importante perceber que a Petrobras tem mais de 30 mil empregados. Tem cinco envolvidos. O escândalo da Petrobras não é da Petrobras, é de um determinado funcionário da alta cúpula da Petrobras."

Corrupção na Fifa

"Para nós é ainda mais preocupante porque o Brasil, como sendo o país que ganhou o maior número de Copas do Mundo de todos os tempos, um país que fez a “copa das copas”, não tem nenhum motivo para se engajar em qualquer processo de corrupção para trazer a Copa para o Brasil. (...) Tudo que disser respeito a essa investigação é do maior interesse do povo brasileiro, porque foi com os recursos do povo brasileiro que este processo ocorreu. Foi gerado muito, muito dinheiro durante a Copa do Mundo, o que é bom para todo mundo, desde que seja de forma absolutamente transparente."

Espionagem dos EUA

"Nas minhas conversas com o presidente Barack Obama, ficou decidido que estas interceptações, a partir daquele momento, jamais ocorreriam novamente. A partir daí, inclusive, o presidente Obama me disse: “quando eu precisar de alguma informação sobre o Brasil, eu telefono para você”. Eu confio que o presidente Obama não permitirá isso em relação ao Brasil. Confio porque ele me prometeu isso."

Cuba

"A partir de agora, temos de lutar para suspender o bloqueio comercial. A ida dos chefes de estado e o fim de bloqueio de fato é algo fundamental. Cuba tem todas as condições de entrar de uma forma muito sustentável para uma nova etapa. Ela tem o maior índice de desenvolvimento humano da América Latina."

Ajuste fiscal e esquerda

"Governo de esquerda, de direita ou de centro - e aí eu acho importante que um governo de esquerda demonstre isso -, quando percebe que é necessário mudar, tem de fazê-lo, tem de ter a coragem de fazer. O que nós estamos tendo é a coragem de fazer um ajuste, e um ajuste forte, para voltar a crescer de forma mais rápida. (...) Tivemos de mudar a política. Paralelamente a isso, vamos manter as conquistas sociais e os investimentos. Os cortes estão muito mais na ampliação do que no que nós já conquistamos. Isso aconteceu, por exemplo, com François Mitterrand (ex-presidente socialista francês). Eu acredito que um governo de esquerda tem que mostrar ser capaz não só de fazer uma política social, mas também de fazer uma política macroeconômica de estabilização."

Legalização do Aborto

"Eu acredito que o Brasil ainda vai ter um processo longo para evoluir nesta área. Se você fizer hoje uma enquete, é possível que nem todas as mulheres defendam isso. Eu acho que é uma questão na qual o Estado não tem de entrar agora. Nós temos de guardar o que pensamos para nós, não temos que entrar nessa área." (Leia mais).

Acordo comercial entre União Europeia e Mercosul

"Temos de marcar a data. Chegamos a este ponto, é um processo que se constrói. Resta saber se, dentro dos países da União Europeia, todos estão prontos. O Brasil não pretende assinar nenhum acordo separado dos outros países do Mercosul. Tanto o Brasil quanto a UE tem a mesma regra de flexibilidade. É possível fazer uma acordo diferenciado para cada país, isso é possível."
 

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