Cultura

Em livro, jornalista francesa retrata o povo brasileiro sem clichês

Capa do livro de Marie Naudascher autora do livro "Les Bresiliens", os brasileiros pela editora Ateliers Henry Dougier.
Capa do livro de Marie Naudascher autora do livro "Les Bresiliens", os brasileiros pela editora Ateliers Henry Dougier. http://ateliershenrydougier.com

O que faz o povo brasileiro ser o que é? O que une todas essas pessoas sob uma mesma bandeira? E se existir um único povo brasileiro, como ele se define? Foi tentando responder a essas perguntas que a jornalista francesa Marie Naudascher começou sua pesquisa para escrever o livro "Les Brésiliens" (os brasileiros, em português).

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Taíse Parente, em colaboração para a RFI Brasil

Mais de 200 milhões de pessoas, 274 línguas e uma variedade de cores, sotaques, culinárias e costumes. O que faz o Brasileiro ser o que é? Há apenas quatro anos no Brasil, mas com um português perfeito, a jornalista francesa Marie Naudascher ainda não sabe como responder a esse pergunta, mas faz, em 141 páginas, um recorte do Brasil do ponto de vista de uma estrangeira. Partes que explicam um pouco do todo, mas que não têm nada de clichê.

Por exemplo, para contar sobre a ascensão da Igreja Evangélica no país, Marie escolheu falar sobre a "Tropa do Louvor": um grupo de policiais evangélicos no Rio de Janeiro que faz parte do BOPE, o Batalhão de Operações Especiais da PM, ou melhor, os tão famosos caveiras do filme "Tropa de Elite". Uma história interessante, segundo a autora, por tudo que ela conta sobre o Brasil.

"O BOPE fica em Laranjeiras, com vista para o Pão de Açúcar, parece um cenário de filme. Até o cartaz na entrada tem uma cabeça de cachorro e diz: 'seja bem-vindo, mas não faça movimentos bruscos'. Quando vi, pensei: isso é uma brincadeira? Mas, ao entrar, você percebe que, de fato, é aquela corporação militar que você viu no filme 'Tropa de Elite', só que com um violão tocando louvor", conta.

Contradições enriquecem o Brasil

Marie explica ainda que são todas essas contradições que fazem com que o Brasil sempre tenha uma história interessante para contar. "É essa mistura de coisas super profundas que tem um impacto enorme na sociedade. Ao mesmo tempo, tem aquele ar de leveza. Ele é um policial, está tocando violão e tem a bíblia em uma mão e a metralhadora na outra, é mais ou menos isso", continua.

Um livro pessoal

Marie conta que, antes de escrever o livro, enquanto correspondente de uma rádio francesa no Brasil, sentia que fazia parte da construção de uma visão superficial do país, de “cartão postal”, que é apenas uma parte da história. Em rádio, justifica a autora, "o jornalista não tem muito tempo para desenvolver uma história".

A autora lembra, no entanto, que não tem "direito" de definir o que é o povo brasileiro. O livro é um relato pessoal, as histórias que presenciou e pessoas que conheceu. Marie diz que uma história que a emocionou muito foi a das empregadas domésticas no Brasil, algo que não é usual na França. "Todos os dias, eu vejo o quanto isso é uma coisa profunda no Brasil, uma herança da escravidão. Em todas as casas, em qualquer lugar que se vá, na televisão, na novela, sempre tem uma doméstica. Isso é uma coisa que eu vejo no dia a dia que realmente me comove", explica.

"Linhas de vida de um povo"

A foto na capa também é outro aspecto um tanto pessoal do livro. A mão, com um mapa da região Nordeste do Brasil como se fosse uma tatuagem, é uma homenagem a um amigo de Marie, Danilo, que a ajudou muito, logo quando ela chegou ao Brasil. A mão da capa também é uma marca da coleção "linhas de vida de um povo", da qual o livro faz parte, e que conta com outros oito títulos, entre regiões, países e diásporas.

O criador da coleção e da editora, Henri Dougier, conta que, mais do que definir o que é um povo, a ideia é produzir histórias que incentivem as sociedades a olharem mais para os outros e menos para si mesmas. "A mensagem é clara. O que vemos à nossa volta hoje em dia é que as pessoas estão mais fechadas. Há muito medo e a extrema-direita está crescendo. Isso me assusta e uma forma de frear essa frieza da sociedade é encorajar as pessoas a abrir os olhos e a se interessar pelo próximo."

REPORTAGEM 09/10/14

País de superlativos

O plano de Marie Naudascher era, originalmente, ficar no Brasil até a Copa do Mundo, como muitos repórteres que foram cobrir o evento esportivo. No entanto, em um país em que tudo é 'o maior do mundo', o amor também deve ser e Marie decidiu ficar. Não apenas pelo encanto que tem pelo Brasil, mas pelo novo marido, um paulista.

Ela acaba de se mudar para São Paulo e, com o novo amor, também vieram novas ideias. Marie conta que planeja escrever sobre a vida em família no Brasil. Um projeto mais pessoal e engraçado, que junta crônicas sobre como é ser mulher de um brasileiro, jantar na sogra e fazer parte da família de forma mais íntima.

"Os Brasileiros" será lançado na França em novembro em versão impressa e em e-book, com fotos e vídeos especiais feitos pela autora.

 

 

 

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