Nuclear/Europa

Europa dividida sobre o futuro da energia nuclear na região

Europeus não conseguem chegar a um acordo sobre a utilização da energia nuclear no continente.
Europeus não conseguem chegar a um acordo sobre a utilização da energia nuclear no continente. Reuters

Depois de a Comissão Europeia qualificar a situação japonesa como "apocalipse", cada país se manifesta sobre a continuação de seus projetos no setor nuclear. O assunto divide os membros do bloco e os vizinhos do velho continente. Os opositores à energia atômica, como os austríacos, aproveitam o episódio para relançar o debate, enquanto outros, como a Rússia, demonstram estar determinados a não alterar seus projetos nucleares.

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Um dia depois de a União Europeia determinar que seus países deverão testar a segurança de suas centrais nucleares, a Áustria, uma antiga defensora do fim desse tipo de energia, está aproveitando o desastre no Japão para tentar convencer os outros europeus a refletir sobre a questão. "Esta catástrofe deve despertar uma ampla discussão sobre a utilização da energia nuclear, não somente na Europa como no mundo inteiro", afirmou o chanceler austríaco, Werner Faymann.

O primeiro passo seria o avanço da Euratom, órgão responsável pelas pesquisas nucleares na União Europeia. Nesta semana, Viena pressionou os europeus a realizar testes de resistência nos cerca de 150 reatores nucleares da UE. A decisão foi tomada na terça-feira em Bruxelas.

No final dos anos 70, os austríacos se opuseram, por referendo, à abertura de uma central nuclear em Zwentendorf, no leste do país. Em 1999, uma lei proibindo a utilização de energia nuclear na Áustria foi adicionada à Constituição.

De lá para cá, o país jamais parou de pressionar os demais europeus a garantirem, no mínimo, a segurança de suas instalações, em especial a Alemanha e o antigo bloco soviético do leste. Novos projetos, como a expansão da central eslovena de Mochovce, a 160 quilômetros de Viena, também são alvo de duras críticas por parte dos austríacos, que abrigam a Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA).

Nesta quarta-feira, a França declarou que a amplitude da tragédia no Japão poderá ser "maior que a de Chernobyl", ocorrida em 1986. Apesar de ser direta nas afirmações quanto aos japoneses, os franceses não parecem dispostos a reabrir o debate sobre as suas políticas energéticas no plano nacional. O primeiro-ministro, François Fillon, fez questão de dissociar a tragédia no Japão das instalações nucleares europeias. Atrás dos Estados Unidos, a França é o país que mais possui sítios nucleares no mundo, com 19 centrais e 58 reatores.

O presidente Nicolas Sarkozy disse hoje que o país vai organizar, nas próximas semanas, uma reunião especial do G20 para tratar sobre as opções energéticas. Ele afirmou que o primeiro dever da França, no momento, é ajudar o Japão.

Já a Espanha anunciou hoje que vai revisar a segurança de suas seis centrais nucleares e promover um estudo sobre os riscos sísmicos e de inundações no país, de acordo com o ministro da Indústria, Miguel Sebastian. "Queremos tirar todas as lições deste acontecimento”, afirmou Sebastian, referindo-se à catástrofe no Japão. Ele assegurou que as seis centrais nucleares e os oito reatores espanhóis são seguros. As organizações ecológicas programam manifestações nesta quinta-feira para pedir o fechamento das centrais, especialmente a de Garona, no norte, que foi construída sob os mesmos moldes de Fukushima, no Japão.

Em 2008, o chefe do Governo espanhol, o socialista José Luis Rodriguez Zapatero, havia prometido diminuir a dependência do país da energia nuclear e estimular as energias renováveis. Mas, em 2009, ele decidiu prolongar até 2013 a atividade de Garona, a central mais antiga da Espanha, aberta em 1971. Zapatero disse que encarregou o Conselho de Segurança Nuclear de coletar informações sobre os riscos sísmicos e de inundações nas centrais.

A Itália, por sua vez, indicou que, se a Europa optar por bloquear o desenvolvimento das energias nucleares em decorrência dos acidentes no Japão, Roma se adaptaria à decisão. O secretário italiano de Estado para a Energia, Stefano Saglia, afirmou que a evolução do programa nuclear italiano só acontecerá com o acordo da UE e das regiões afetadas pelos projetos. Ele estima, entretanto, que seria "um erro" se somente a Itália voltar atrás no seu programa. No próximo dia 23, o Conselho dos Ministros italianos vai determinar os critérios de localização das futuras centrais, que devem ser construídas até 2020.

Da mesma forma, a Finlândia anunciou hoje que é muito cedo para pensar nas consequências do acidente nuclear de Fukushima sobre a construção de um reator de terceira geração, chamado EPR, no país. "Não há qualquer mudança imediata nos planos de construção, porque ainda não sabemos exatamente o que aconteceu na central de Fukushima", disse Jouni Silvennoinen, chefe do projeto de Olkiluoto 3, cuja construção está atrasada no sudoeste da Finlândia. O início do funcionamento da central é previsto para o segundo semestre de 2012.

Com ainda mais firmeza, o governo russo demonstra estar determinado a não alterar seus projetos nucleares, 25 anos após ter enfrentado a maior catástrofe do gênero do mundo, com a explosão de Chernobyl, na vizinha Ucrânia. De acordo com as agências de notícias, o acidente no Japão não provocou debates nacionais sobre os riscos da exploração nuclear e as associações ecologistas são fracas demais para conseguir fazer pressão no governo.

Ontem, o primeiro-ministro russo, Vladimir Putin, pediu aos ministérios relacionados ao programa nuclear de verificarem as condições de segurança nas centrais, mas deixou claro que Moscou não modificará a sua política energética. Putin assegurou que o país não possui instalações nucleares em zonas sísmicas, nem a intenção de construí-las em locais de risco. Especialistas contestam, entretanto, a afirmação, e dizem que as centrais de Balakovo e Rostov encontram-se em locais "potencialmente perigosos".
 

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