Ucrânia/ protestos

Milhares de ucranianos voltam a protestar contra o governo

Manifestantes em Kiev usaram máscaras para ironizar proibição de cobrir o rosto durante protestos.
Manifestantes em Kiev usaram máscaras para ironizar proibição de cobrir o rosto durante protestos. REUTERS/Gleb Garanich

Entre 100 e 200 mil manifestantes protestaram hoje (19) nas ruas de Kiev, capital da Ucrânia, contra novas leis que visam à erradicação de protestos contra o governo. Incidentes à margem do protesto levaram a polícia a usar gás lacrimogêneo e a enfrentar os participantes do ato. Pelo menos 39 pessoas ficaram feridas. Quatro manifestantes foram detidos.

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Uma parte dos manifestantes atirou pedras e pedaços de madeira nos policiais que controlavam o ato, e tentou virar um ônibus utilizado para bloquear o acesso ao Parlamento, a cerca de 100 metros da praça da Independência, foco dos protestos. O frio de cerca de -8°C não desmobilizou os participantes.

No final do protesto, os confrontos entre manifestantes e a polícia foram mais violentos. Centenas de manifestantes tentaram furar um cordão de isolamento policial. Eles colocaram fogo em dois carros de polícia e foram contidos com bombas de gás lacrimogêneo, cassetetes e jatos de água, apesar do frio intenso. Pelo menos nove manifestantes e 30 policiais ficaram feridos. Quatro opositores foram detidos.

O líder da oposição, o boxeador Vitali Klitschko, pediu calma. Os Estados Undios pediram essa noite o fim da violência e o início de negociações na Ucrânia. O presidente Viktor Yanukovich prometeu criar uma comissão para acabar com a crise.

Legislação contra as manifestações

Os manifestantes deste domingo atenderam aos apelos dos líderes da oposição para denunciar a proibição de qualquer ato público no centro de Kiev até 8 de março. A mobilização foi a maior já realizada neste ano. Dezenas de pessoas usavam capacetes ou máscaras carnavalescas, em sinal de desprezo diante de uma das novas leis, que pune as pessoas que protestarem com o rosto coberto.

As manifestações se iniciaram há dois meses para pedir a integração da Ucrânia à União Europeia, e se intensificaram na semana passada, depois que o Parlamento passou a analisar uma nova legislação para reprimir atos populares. O objetivo é proibir a instalação de tendas, palcos e alto-falantes não autorizados em praça pública. A oposição diz que o texto, que prevê penas de prisão e multas, levará a um estado policial.

Com o aumento significativo das adesões contra o presidente Viktor Yanukovich, líderes da oposição anunciaram um plano para recolher assinaturas das pessoas que expressam nenhuma confiança em sua liderança e no Parlamento. Os opositores desejam formar movimentos para estabelecer uma estrutura paralela - incluindo uma assembleia do povo e uma nova constituição. O projeto foi denunciado por apoiadores do presidente, que alegam a inconstitucionalidade da iniciativa.

Rússia x União Europeia

Tudo começou em novembro, quando Yanukovich – favorável a uma maior aproximação com a Rússia - se recusou a assinar um acordo de livre comércio com a União Europeia. Depois de o movimento de contestação ter conseguido mobilizar centenas de milhares de pessoas em novembro e início de dezembro, ele perdeu força após a assinatura, no dia 17 de dezembro em Moscou, de acordos econômicos que forneciam um crédito de 15 bilhões de dólares à Ucrânia e reduziam o preço do gás russo em cerca de um terço.

Mas a adoção das novas leis repressivas pode dar mais vigor aos protestos. Os textos, votados em meio a cenas de caos no Parlamento, estabelecem penas de 15 dias de prisão pela instalação não autorizada de tendas em locais públicos e de até cinco anos de prisão para as pessoas que bloquearem os prédios oficiais. Uma lei pune com multas, confisco de carteiras de motorista e apreensão de carros de qualquer manifestação envolvendo mais de cinco veículos.

Sanções

Os ocidentais alertaram as autoridades ucranianas sobre o teor dos textos. O ministro das Relações Exteriores sueco, Carl Bildt, defensor da aproximação entre Ucrânia e UE, disse que os europeus discutiram com os americanos sanções contra membros do governo.

"Nós falamos disso com os americanos. Isso tem a ver, antes de tudo, com a questão da violência. Nossa posição exata é que a violência não deve ser empregada contra os participantes pacíficos de manifestações", declarou.
 

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