Ucrânia/Política

Oposição recusa propostas do governo e mobilização se espalha pela Ucrânia

Manifestantes mantém tendas na Praça da Independência em Kiev e promotem continuar a lutar contra o governo.
Manifestantes mantém tendas na Praça da Independência em Kiev e promotem continuar a lutar contra o governo. Foto: Reuters

A oposição ucraniana continua determinada neste domingo (26) a lutar contra o governo após uma nova madrugada de enfrentamentos com a polícia em Kiev. Os opositores consideram insuficientes as concessões, consideradas sem precedentes, feitas pelo presidente Viktor Yanoukovitch para tentar por um fim à crise política no país.  

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Dezenas de milhares de manifestantes continuavam a ocupar na tarde deste domingo a Praça da Independência, no centro da capital ucraniana, que se tornou um local altamente simbólico do movimento de contestação. Em domingos anteriores, o número de manifestantes era considerado muito maior e estimado em centenas de milhares de pessoas.

A mobilização era acompanhada de perto por militantes armados e protegidos por capacetes, que são encarregados de manter a ordem no interior de espaços transformados em locais de concentração, atrás de barricadas.

"As pessoas têm medo, eles estão sendo submetidas à pressões nos seus ambientes de trabalho” se elas manifestarem sua oposição ao governo, declarou o jovem Serguei à agência AFP, sem querer revelar seu nome completo.

Não muito longe da Praça da Independência, milhares de pessoas participaram na Catedral de São Miguel do funeral de um jovem bielorusso morto durante confrontos recentes entre os opositores e os policiais. Três dos principais dirigentes da oposição, Vitali Klitschko, Arséni Iatséniouk e OlegTiagnybok, assistiram à cerimônia religiosa.

Sinal de que a situação continua tensa no país, cerca de 2 mil manifestantes invadiram na madrugada deste domingo o prédio “Casa da Ucrânia” e expulsaram as forças de segurança do local. No domingo de manhã, os opositores continuavam a limpar a sala de exposição cujo solo ficou cheio de cacos de vidros cobertos por gelo.

Durante os confrontos, os policiais lançaram jatos de água para dispersar os manifestantes diante de uma temperatura de 15 graus negativos.Autoridades ucranianas afirmaram que as forças de ordem se retiraram do local para evitar que a situação piorasse. Dois policiais ficaram feridos e fora hospitalizados.

Concessões

O ataque contra o local aconteceu logo após os discursos dos líderes da oposição. Apesar de não terem evocado explicitamente as propostas do presidente Viktor Yanoukovitch, eles afirmaram continuar mobilizados e exigir a convocação de eleições presidenciais ainda este ano e não em 2015, como previsto.

"A luta continua", declarou o líder nacionalista Oleg Tiagnybok diante de dezenas de milhares de pessoas reunidas na noite de sábado na Praça da Independência.

"Estamos determinados e não vamos recusar", assegurou Vitali Klitschko, que recebeu do presidente ucraniano a proposta de assumir o cargo de vice-primeiro ministro. Reconhecendo que o presidente Yanoukovitch atendeu boa parte das exigências da oposição, o ex-boxeador afirmou, no entanto, que “as negociações continuam”.

Já Arséni Iatséniouk, que recebeu a proposta de se tornar primeiro-ministro, disse "estar pronto para assumir suas responsabilidades", mas ao mesmo tempo, afirmou “não acreditar em uma palavra” do que prometeu o chefe de estado.

O presidente Yanoukovitch surpreendeu ao também aceitar a criação de um grupo de trabalho encarregado de “modificar a legislação sobre os referendos e, talvez, através deste mecanismo, propor emendas à Constituição”.

A oposição defende um retorno à Constituição de 2004, adotada após a Revolução Laranja, que havia dotado a Ucrânia de um regime parlamentar, com plenos poderes ao chefe de governo. Mais tarde a Constituição foi revisada e o presidente da ex-república soviética voltou a concentrar o poder.

Papa

O balanço oficial da última semana de protestos é de três mortos, mas os opositores afirmam que seis manifestantes perderam a vida durante confrontos com a polícia. No sábado, o movimento de contestação se espalhou para outras regiões do país, ao norte e ao leste, fato até então inédito.

 A chefe da diplomacia europeia, Catherine Ashton, é aguardada em Kiev na próxima quinta-feira para uma visita de dois dias. Neste domingo, o Papa Francisco evocou a situação da Ucrânia.

“Eu espero um diálogo construtivo entre as instituições e a sociedade civil e que, sem o uso da força, o espírito da paz e da busca pelo bem comum prevaleça no coração de todos”, afirmou o Sumo Pontífice.
 

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