Grécia/Eleições

Grécia tem eleição legislativa mais importante em 40 anos

Homem passeia em frente ao Parlamento grego, neste sábado.
Homem passeia em frente ao Parlamento grego, neste sábado. REUTERS/Marko Djurica

Cerca de 9,8 milhões de gregos votam neste domingo (25) em legislativas antecipadas para eleger um novo governo pelos próximos cinco anos na Grécia. As pesquisas indicam uma guinada do país à esquerda, com a provável vitória do partido antiausteridade Syriza, dirigido pelo eurodeputado Alexis Tsipras, de 40 anos. Os ideólogos da legenda são de tendência marxista, o que deixa as capitais europeias assustadas.

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Adriana Moysés, enviada especial da RFI a Atenas

Tsipras quer renegociar a dívida colossal da Grécia, que chegou a 175% do PIB no final de 2014 (€ 321,7 bilhões), e enterrar o ciclo de rigor imposto pelos credores, a chamada troika formada pelo FMI, a União Europeia e o Banco Central Europeu. Os países da zona do euro detêm a maior parte da dívida grega. Além disso, o partido defende o restabelecimento de políticas sociais e reformas institucionais.

O programa do Syriza prevê um aumento de € 12 bilhões das despesas do Estado, o recuo da idade da aposentadoria de 67 para 62 anos e aumento de 10% do salário mínimo, entre outras medidas. Mesmo que obtenha a maioria absoluta do Parlamento, poucos acreditam que o partido consiga executar essas promessas.

Segundo uma pesquisa do instituto Alco, divulgada na sexta-feira, o Syriza teria 6,6 pontos de vantagem sobre o partido conservador Nova Democracia, do primeiro-ministro Antonis Samaras. A esquerda radical obteria 32,9% dos votos contra 26,3% dos conservadores. Com esse desempenho, o Syriza não conseguiria a maioria absoluta do Parlamento grego, formado por 300 deputados. A sigla terá de negociar com outros partidos menores um governo de coalizão.

A metade dos eleitores gregos quer uma nova geração de políticos no poder. Os dois partidos que governaram a Grécia nos últimos 30 anos, o Nova Democracia e o socialista Pasok, são associados ao clientelismo e à corrupção.

Novos partidos

Com o agravamento da crise, surgiram novos partidos na cena política grega. O mais recente é a legenda de centro-esquerda To Potami (O Rio, em português), fundado pelo apresentador de TV Stavros Theodorakis. O To Potami tem 8% das intenções de voto e pode representar uma boa alternativa de aliança para o Syriza. É um partido formado por jovens profissionais de classe média, que nunca exerceram mandatos políticos, mas são reformistas e profundamente pró-europeus. Com o To Potami, o Syriza pode ganhar um sócio moderado, útil nas futuras discussões com a troika.

Outro partido que deve atingir os 3% mínimos necessários para enviar deputados ao Parlamento é o Gregos Independentes. A legenda nacionalista de direita é uma dissidência do Nova Democracia, que já se aliou ao Syriza em dezembro para inviabilizar a eleição presidencial e obrigar o governo a convocar eleições antecipadas. Sobram ainda como opções os comunistas do KKE, os socialistas do Pasok e o novo partido do ex-primeiro ministro Georges Papandreous.

Neonazistas podem causar surpresa

A pedra no sapato das forças de esquerda, de centro e de direita são os neonazistas do Aurora Dourada. Alguns institutos apontam o partido de extrema-direita em terceiro lugar, na frente do To Potami.

Há um ano toda a direção do Aurora Dourada está na prisão, incluindo o presidente da legenda. Sete deputados foram indiciados na Justiça por pertencer a uma “organização criminosa”, depois que um membro do partido assassinou, em setembro de 2013, o cantor de rap Pavlos Fyssas. O crime chocou a Grécia. Mesmo assim, o partido xenófobo, de discurso violento anti-imigração, ainda atrai de 6% a 8% dos eleitores.

Pela legislação eleitoral grega, quando nenhum partido obtém a maioria absoluta das 300 cadeiras do Parlamento, os três primeiros colocados são chamados a formar um governo pela ordem de chegada. O principal temor é que os neonazistas se encontrem nessa posição de força.

O jornal liberal Proto Thema chegou às bancas neste sábado com a manchete "Apertem os cintos". Esta eleição na Grécia vai sacudir a Europa.

Remédio amargo

Os gregos tomam um remédio amargo há pelo menos quatro anos, desde que o governo recorreu a um empréstimo de € 240 bilhões para sanear um déficit real estimado em 12% (2009). Na época, o mundo descobriu que as autoridades gregas maquiavam as contas públicas. O déficit oficial publicado em 2009 foi de 2,7%.

Para obter os créditos e evitar a falência, o governo grego se comprometeu a colocar em prática um programa de reformas draconiano. Cortes de 30% nos salários e aposentadorias; demissão de 265 mil funcionários públicos; fechamento de hospitais; redução do seguro desemprego para 12 meses; aumento de impostos. Em quatro anos, 30% dos gregos caíram abaixo da linha da pobreza. Atualmente, 3 milhões de pessoas não dispõem de cobertura médica do Estado.

Os resultados econômicos desse aperto nas contas públicas começaram a aparecer em 2013, quando a Grécia conseguiu obter um superávit primário (descontados os juros da dívida) de € 1,5 bilhão e no ano passado. Em 2014, a coalizão de governo (Nova Democracia-Pasok), conseguiu emplacar um crescimento de 0,7% no terceiro trimestre do ano.

O Syriza conquistou milhões de eleitores ao apelar para a emoção dos gregos. Com um slogan de campanha baseado na “mudança” e na “esperança”, Alexis Tsipras afirmou que seu primeiro objetivo, como chefe de governo, será que “nenhum grego tenha fome, frio ou precise subornar um médico para ser atendido no sistema público de saúde”. Disse ainda que, na segunda-feira, a troika de credores vai estar fora da Grécia. Essa retórica populista causa preocupação em Bruxelas e é criticada por alguns analistas políticos.

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