Eleições Legislativas/Grécia

Gregos votam sem entusiasmo e inseguros sobre o futuro

Eleitor grego vota em seção eleitoral da capital Atenas, neste domingo (25).
Eleitor grego vota em seção eleitoral da capital Atenas, neste domingo (25). REUTERS/Alkis Konstantinidis

Os gregos votam desde às 7h deste domingo (25), no horário local (3h em Brasília), para eleger um novo governo. A reportagem da RFI esteve em duas escolas públicas utilizadas como seções eleitorais nos bairros de Liosia e Petralona, próximos do centro de Atenas. Os eleitores votavam calmamente, sem grande entusiasmo.

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Adriana Moysés, enviada especial da RFI a Atenas

A servidora pública Ariadnis Zoumbouli, de 39 anos, disse que votou nos candidatos a deputado do partido de centro-esquerda To Potami. “Votei contra o Aurora Dourada [neonazista], esta foi a razão do meu voto”, afirmou. Ela espera que o To Potami tenha uma votação superior à do partido de extrema-direita e com isso reduza as chances do Aurora Dourada formar uma grande bancada no Parlamento. A funcionária pública fez questão de destacar que não é militante do To Potami. Mas considera o novo partido, fundado por um apresentador de TV popular na Grécia, uma “força democrática”. “Não quis votar nos outros partidos, todos ligados aos últimos governos da Grécia, que me decepcionaram muito”, disse a eleitora.

Xenofon Vassiloianis, funcionário público de 57 anos, votou no Syriza. Ele contou que a crise afetou demais a vida dele e de sua família. Seu salário foi reduzido a tal ponto que ele não consegue mais fazer planos para o futuro. “Estou contente de ter votado para mandar embora esse governo”, afirmou. Vassiloianis lamentou que “os partidos que governaram a Grécia nos últimos 40 anos acabaram com o país, os salários e as aposentadorias”. O eleitor acredita que um governo do Syriza provocará mudanças na Grécia e em outros países do sul da Europa. A falta de experiência da esquerda radical não o preocupa: “Eles não têm experiência na política, mas conhecem pessoas bem preparadas, economistas que conhecem a realidade do país e saberão negociar”, afirmou.

O funcionário dos correios Yelias Plesias votou no partido conservador do primeiro-ministro Antonis Samaras (Nova Democracia). “Samaras começou um trabalho que requer tempo para mostrar resultados, por isso votei nele”, explicou o eleitor. Plesias destacou que não está satisfeito com a atual situação, mas acha que Samaras merece mais tempo no governo. Na opinião do eleitor, os próximos dias serão muito difíceis para os gregos. Ele teme a falta de experiência de Alexis Tsipras. “Não acredito que o líder de esquerda tenha as soluções, principalmente em um momento em que a Grécia vai enfrentar duras negociações com a União Europeia”, avaliou.

Tsipras vota mandando recado à UE

Ao votar em Atenas, o líder nas pesquisas, Alexis Tsipras, do partido de esquerda antiausteridade Syriza, declarou diante de centenas de jornalistas: “Hoje, os gregos vão decidir se a troika [FMI, União Europeia e Banco Central Europeu] vai voltar amanhã à Grécia ou se nosso país vai se lançar em uma renegociação difícil, mas que tem por objetivo resgatar a dignidade e a coesão social”.

Mais cedo, em sua cidade natal na região do Peloponeso, o primeiro-ministro Antonis Samaras, do partido conservador Nova Democracia, apontado em segundo lugar nas pesquisas, disse o contrário: “Hoje, nós decidiremos se avançamos ou se nos lançaremos no desconhecido”.

Tsipras declarou que, se for eleito chefe de governo, ele vai exigir da União Europeia e do FMI uma redução substancial da dívida grega (€ 320 bilhões). O líder da esquerda radical lembrou as concessões feitas à Alemanha no pós-guerra e disse que vai reivindicar para a Grécia um tratamento similar. Durante a campanha, Tsipras citou várias vezes a Conferência de Londres, realizada em 1953, quando os países credores da Alemanha decidiram cancelar a maior parte da dívida que o país possuía por não ter condições de pagar depois de ficar destruído na Segunda Guerra.

Aurora Dourada

Uma das incógnitas desta eleição é o desempenho do partido neonazista Aurora Dourada. Apesar dos processos judiciais envolvendo 70 militantes da legenda e de sete de seus 16 deputados estarem presos, acusados de pertencer a uma organização criminosa, o Aurora Dourada pode emergir das urnas como a terceira força política da Grécia.

Caso o Syriza não alcance a maioria absoluta do Parlamento (151 deputados) para poder governar sozinho, e os dois primeiros colocados fracassarem na tentativa de formar um governo de coalizão, a Constituição grega prevê que o terceiro colocado deve ser consultado para a formação do governo. Seria uma situação inusitada, já que o Aurora Dourada não tem a menor chance de encontrar parceiros para governar. A solução, então, seria a convocação de novas eleições em março.

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