Europa/Migração

Ministro espanhol defende intervenção militar na Líbia

Soldados e milicianos viraram presenças comuns nas ruas da capital Líbia, Trípoli
Soldados e milicianos viraram presenças comuns nas ruas da capital Líbia, Trípoli REUTERS/Asmaa Waguih

Diante do caos político que abriu as portas da Líbia para o grupo Estado Islâmico e causou umas das maiores crises migratórias da história, o ministro espanhol da Defesa, Pedro Morenes, defendeu neste sábado (6) uma intervenção militar internacional no país norte-africano. "Fomos para o Afeganistão para impedir que tudo isso chegasse aqui, estamos no Iraque, no Mali e na Somália com o mesmo objetivo. Agora, o problema mora ao lado. Algo deve ser feito", disparou em entrevista ao jornal El Pais.

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Morenes conta que, na semana passada, questionou a chefe da diplomacia europeia, Federica Mogherini, sobre o assunto. E ela teria respondido: "Acho inacreditável que ainda haja nações que se opõem (a uma intevenção). Pense na Síria. Há quatro anos, assistimos enquanto eles se matam mutuamente e (o Conselho de Segurança da ONU) é bloqueado por vetos. Esse é o mundo em que vivemos".

O ministro reiterou o apoio da Espanha a uma proposta italiana que pedia que a coalizão liderada pelos Estados Unidos que enfrenta o grupo Estado Islâmico na Síria e no Iraque tenha as operações estendidas para a Líbia. "Não existe uma coalizão para lutar contra o Daesh (sigla em árabe para designar a organização jihadista) no Iraque ou na Síria, existe uma coalizão para enfrentar o Daesh e ponto final". Para ele, é preciso que a comunidade internacional se articule antes que o "califado" tome a Síria.

Potências ocidentais - incluindo a Espanha, que neste ano ocupa um assento não-permanente no Conselho de Segurança da ONU - insistem em uma solução política para a crise na Líbia, mas não descartam a via militar. Mas isso, para Morenes, teria de acontecer com a aprovação do governo local. "A Líbia é um Estado soberano, independentemente de quem esteja no controle", afirmou. Mas a questão é justamente essa: quem governa a Líbia?

Caos instaurado

O país sucumbiu ao caos depois que a insurreição de 2011, apoiada pela Otan, destituiu e executou o ditador Muammar Kadhafi. Uma série de grupos fortemente armados pelas forças internacionais, sem unidade entre si e endurecidos pelas batalhas da primavera árabe passaram formar seus quartéis generais por todo o país.

Um governo nunca conseguiu se estabelecer na era pós-Kadhafi. Atualmente, o país tem dois governos e dois parlamentos distintos: a capital Trípoli foi tomada no ano passado pelas forças da Alvorada Líbia, forçando o governo reconhecido internacionalmente a se instalar no leste do país, na cidade de Tobruk.

Migração e radicalismo islâmico

Entre as diversas consequências do caos na Líbia, a que mais parece preocupar a Europa é o fato de que o país se tornou o principal mercado para os atravessadores que conduzem migrantes ilegais pelo Mediterrâneo. Nos últimos anos, houve uma explosão no número de pessoas que tentam a arriscadíssima travessia - e, consequentemente, na quantidade de refugiados mortos ou desaparecidos no mar. Desde o início do ano, a rota fez mais de 1770 vítimas.

Até agora, a União Europeia não foi capaz de apresentar um plano humanitário à altura da crise e tem se restringido a ampliar o controle fronteiriço. Mas diversas organizações, inclusive a ONU, advertem para o fato de que o controle do Mediterrâneo não fará mais do que criar novas - e, possivelmente, até mais perigosas - rotas de entrada para essas pessoas na Europa.

Outra preocupação, agravada pelo impressionante avanço do grupo ultrarradical Estado Islâmico no Iraque e na Síria, é que os jihadistas se apoderem do território líbio. Em abril, a organização divulgou um vídeo em que milicianos mascarados decapitavam dezenas de cristãos etíopes na Líbia. No mês passado, foi lançado outro vídeo nas redes que mostrava combatentes líbios atacando Benghazi (leste), executando prisioneiros e pedindo apoio do EI.
 

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