Turquia

Eleições turcas: um forte revés para o projeto conservador islâmico de Erdogan

Erdogan perdeu a maioria absoluta no Parlamento turco.
Erdogan perdeu a maioria absoluta no Parlamento turco. REUTERS/Murad Sezer

As eleições legislativas na Turquia representaram um forte revés para o Partido da Justiça e Desenvolvimento (AKP), do presidente Recep Tayyip Erdogan, que saiu vencedor, com pouco mais de 40% dos votos, mas que perdeu a maioria no congresso. Uma queda que contrasta com o bom desempenho do partido pró-curdo HDP, sigla para Partido Democrático dos Povos, que conquistou inéditos 13% dos votos.  

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Jérôme Bastion, correspondente da RFI em Istambul.

Segundo resultados definitivos, o partido islâmico conservador ficou em primeiro lugar, com 258 das 550 cadeiras do Parlamento, mas, pela primeira vez em 13 anos, terá de formar um governo de coalizão. Com 13% dos votos, o HDP entra no Parlamento com uma bancada de 79 deputados. Os curdos da Turquia comemoraram com fogos de artifício, carreatas e buzinaços em seus redutos eleitorais.

Os outros dois concorrentes do partido no poder, o Partido Republicano do Povo (CHP) e o Partido da Ação Nacionalista (MHP) obtiveram juntos 231 assentos no Parlamento. Com este revés histórico, Erdogan não poderá mudar a Constituição do país, seu principal projeto político.

A segunda-feira foi de turbulência financeira. O Banco Central interveio no mercado na manhã desta segunda-feira, baixando as taxas de juros dos depósitos bancários para conter a queda da moeda, fragilizada pelo resultado das eleições.

Mudança constitucional barrada

O resultado significa, antes de tudo, um fracasso pessoal para o homem forte da Turquia, que liderou uma campanha enérgica. Ele fez comícios em cada uma das 81 províncias do país ao longo dos últimos dois meses. Erdogan se engajou pessoalmente porque era o seu futuro político que estava em jogo, tendo na manga uma mudança de regime. Mas foi também este engajamento excessivo que desagradou a muitos eleitores, assim como sua retórica extremamente agressiva, discriminatória e ressentida.

Ao mesmo tempo, é uma vitória de simbólica incomensurável para o pequeno partido pró-curdo HFP que, pela primeira vez na história turca, entra para valer no parlamento. Até então, existiam apenas candidatos curdos independentes.

O primeiro-ministro Ahmet Davutoglu tentou minimizar o tamanho da derrota. “A eleição mostrou novamente que o AKP é a coluna vertebral do país. Ninguém deve tentar transformar uma derrota em vitória”, afirmou, se referindo ao desempenho dos adversários. Ele prometeu seguir o combate para alterar a constituição.

Esta foi uma das principais questões do pleito: se o AKP conseguisse conquistar pelo menos 330 cadeiras, Erdogan teria caminho livre para alterar o texto original da constituição e implementar um regime presidencialista que reforçaria seu poder.

É difícil, por enquanto, conhecer a composição do futuro poder executivo. Todas as formas de coalisão evocadas até agora parecem improváveis, seja entre o partido do governo e um eventual parceiro, seja com algum partido de oposição.

Como consequência, já se fala dentro do AKP de uma possível eleição antecipada, mas que poderia ter resultados ainda mais dramáticos para o partido islâmico conservador. Uma coisa é quase certa: o AKP de Recep Tayyip Erdogan deve sofrer uma implosão por causa de suas divisões internas, o que não deve ajudar a resolver a instabilidade política, que pode se instalar por ainda muito mais tempo.

 

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