Vida em França

França: Restauração e construção civil “infectadas” pela pandemia

Áudio 09:09
Café de Flore, em Paris. 22 de Abril de 2020.
Café de Flore, em Paris. 22 de Abril de 2020. AFP - FRANCK FIFE

Em França, os sectores da hotelaria e restauração diminuíram a actividade em 90% e o da construção civil em 88% desde o início do confinamento. As obras recomeçaram, em câmara lenta, esta semana, mas os cafés e os restaurantes vão continuar fechados depois de 11 de Maio, a data do levantamento gradual do confinamento. A RFI falou com alguns empresários lusófonos em Paris que estão preocupados com o impacto da pandemia de covid-19 nos seus negócios.

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Numa Europa confinada há semanas, ainda a sofrer com covid-19 mas impaciente de relançar a sua economia, são vários os sectores que estão a padecer do novo coronavírus. Em França, a actividade económica geral diminuiu 36% desde o início do confinamento, a 17 de Março, a actividade industrial desceu 43%, a construção 88% e o sector da hotelaria e restauração 90%.

Há, até agora, 10 milhões de trabalhadores em “lay off” e o governo prevê que o PIB vá recuar 8% este ano face ao choque económico provocado pela pandemia. Um choque que não será limitado às oito semanas de confinamento.

Em França, os cafés e restaurantes vão continuar fechados após a data do levantamento gradual do confinamento. Algo descrito como uma “catástrofe económica” para o principal sindicato do sector (Union des métiers et des industries de l'hôtellerie) que fala em “ano perdido para os cafés, hotéis, restaurantes e discotecas”.

Sandra Gonçalves é co-gerente da Padaria e Pastelaria Canelas, na região de Paris. Um negócio de 40 anos de uma família portuguesa, com um volume de negócios de 4 milhões de euros no ano passado. Agora, está a sofrer um significativo rombo nas contas.

Baixámos a actividade de 80%. Fechámos completamente a parte ‘catering’ e eventos, fechámos a loja porque havia uma parte restauração. Só estamos abertos para a parte padaria e pastelaria para os revendedores”, conta Sandra Gonçalves, acrescentando que também passaram a fazer entregas de encomendas ao domicílio.

Até três meses conseguimos aguentar, mas depois vamos ter de arranjar outras soluções”, conta a gerente, indicando que neste momento estão a trabalhar sete pessoas contra as habituais 45. As outras estão em “lay off”, “com salários mantidos a 84%”.

O optimismo de Sandra Gonçalves não é partilhado por Celeste do Carmo, a cabo-verdiana que espalhou os sabores crioulos em Paris com o restaurante “Chez Celeste”. Aos 67 anos e depois de 30 anos na restauração, Celeste passou a gerência a 1 de Março. O problema é que chegou o novo coronavírus, o restaurante foi obrigado a fechar, os novos proprietários não podem pagar e  a reforma de Celeste do Carmo ficou hipotecada.

No primeiro de Março aluguei o restaurante, o problema é que ninguém me paga por causa disto tudo. Estou um bocadinho embaraçada. Disseram que não podem pagar porque não estão a ganhar. É um problema”, lamenta.

Outro sector a sofrer com a pandemia é a construção civil. A maioria das obras ficou parada e só esta semana, um mês após o início do confinamento, é que algumas retomaram, apesar da dificuldade em aplicar o distanciamento para proteger os trabalhadores.

Arthur Machado é Presidente do grupo Central Pose que fez empreitadas na Avenida dos Campos Elísios, na Praça da República, no Stade de France e actualmente na Esplanada dos Inválidos, em Paris.  Com um volume de negócios no ano passado de quase 100 milhões de euros e com quase 800 trabalhadores, Arthur Machado teve praticamente todo o negócio parado até agora.

Isto está complicado já há seis semanas porque parámos as obras todas. Entretanto, já começámos uma ou duas obras, mas vai durar muito tempo. Esta semana vamos ter 10% , na próxima vamos estar pelos 30% e quando acabar o confinamento vamos estar a 70 ou 80% da actividade. Este mês vamos facturar 90% a menos do que a gente devia facturar”, conta Arthur Machado.

Mais ainda que a construção civil, as empresas no sector da restauração estão a absorver, na linha da frente, o impacto da pandemia, sublinha Carlos Vinhas Pereira, presidente da Câmara de Comércio e Industria Franco-Portuguesa.  

As empresas no ramo da restauração “além do Covid-19, já tinham um grande problema desde o ano passado com  os coletes amarelos que obrigaram muitos a fechar”, explica Carlos Vinhas Pereira, sublinhando que “neste momento entre 30 a 40%” estão em risco de fechar, mas o número “pode ir muito além”.

A esperança é que, quando abrirem, “não se sabe ainda quando”, a afluência seja superior ao normal porque os residentes em França “certamente” vão passar as férias dentro do país. O problema é que “o país vai ter de aprender a viver” com o novo coronavírus, alertou o primeiro-ministro francês, Edouard Philippe. Em causa a falta de imunidade colectiva, o facto de não se ter uma vacina rapidamente e de ainda não haver um tratamento eficaz. Perante isto, será que as pessoas vão voltar para as esplanadas dos cafés? A crise sanitária vai provocar “a maior recessão em França desde o fim da segunda guerra mundial”, alertou Edouard Philippe.  

Vida em França: Do confinamento à crise

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