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Dulce Maria Cardoso apresenta "Eliete" em Paris

Áudio 31:05
Escritora portuguesa, Dulce Maria Cardoso
Escritora portuguesa, Dulce Maria Cardoso © RFI
Por: Lígia ANJOS
35 min

A obra “Eliete – A vida normal” da escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso chegou ao público francês pela mão da editora Chandeigne.

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A escritora portuguesa Dulce Maria Cardoso é provavelmente uma das mais importantes da sua geração. Autora de cinco romances e de uma antologia de contos, tem obras publicadas em mais de trinta países, entre os quais a França.

Dulce Maria Cardoso esteve esta semana em Paris para a apresentar "Eliete - A vida normal", obra publicada em francês pelas Editions Chandeigne, com tradução de Elodie Dupeau. 

"Simbolicamente a Eliete nasceu no ano da Revolução e tem tanto tempo quando a Revolução portuguesa. Ela própria se define durante o romance como uma mulher normal. Ela diz, de si própria, que não tem nada de especial: nem no aspecto físico nem nas qualidades, nem sequer a vida", descreve a autora do romance.

Elite transforma-se numa personagem de resistência, parece viver entre uma rotina de vida normal sem conseguir escapar à herança política, social ou histórica.

"Nos romances, normalmente, as personagens ou são excepcionais ou são personagens normais. Aqui temos uma normalidade que começa por ser pessoal, pelo facto de eu nunca ter tido essa tal normalidade na minha vida. Aconteceu assim, tive sempre uma vida bastante acidentada, com muitos antes e depois, que não me permitia ter uma vida como as que eu via nos meu colegas, por exemplo. Também tem que ver com a ideia de que o Salazar, que emoldura o romance, criou esta ideia de 'vida normal', que convenceu os portugueses a aceitarem um ditadura tão longa, mas também porque queria falar de mudança", descreve Dulce Maria Cardoso.

Através da família de Eliete, Dulce Maria Cardoso tenta traçar um retrato da história de Portugal: "a Revolução do 25 de Abril acabou com as manifestações mais agudas da ditadura; acabou com a censura, com os presos políticos, mas não acabou porque as revoluções nunca conseguem fazer isso com a mentalidade. A mentalidade continua e continuou na educação das pessoas que viveram aqueles tempos e que os transmitiram aos seus filhos", lembra.

"Eliete já tinha todas as condições de saber que não estava bem, que o seu relacionamento familiar não era saudável, foi no momento em que está toda a gente numa alegria colectiva que ela percebeu que não pertencia àquela alegria, mas pior do que isso, não pertencia ali. Não era a avó que tinha mudado porque estava desmemoriada, nem o Jorge por outra razão qualquer ou as filhas, era ela própria que tinha mudado e já não tinha aquele lugar. Não há traição maior do que aquele que cometemos sobre nós próprios", descreve a escritora. 

O romance começa com uma referência a Salazar e termina com uma carta do ditador. No final das quase 300 páginas, Eliete deixa-nos uma questão em aberto. Os leitores aguardam pela continuação do romance.

"Haverá uma segunda parte que explicará a existência da tal carta para explicar de onde apareceu a carta e explicará a peripécia, mas a peripécia - como eu digo - não é o mais importante do romance. O mais importante é pensar no que é hoje a família: como é que é uma família e quais são os desafios que enfrentam", conclui Dulce Maria Cardoso.

"Eliete - A vida normal" é um dos 12 romances estrangeiros na lista de candidatos ao Prémio Femina.

 

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