Violência policial

França "chocada" com novo caso de violência policial

Michel Zecler produtor musical francês espancado pela polícia.
Michel Zecler produtor musical francês espancado pela polícia. AP - Thibault Camus

O violento espancamento de um homem negro por elementos da polícia em Paris, que inclusive “chocou” o presidente Emmanuel Macron, veio relançar o debate sobre o racismo e as violências policiais em França, alimentado pela controversa lei da “Segurança global” que impede o registo vídeo das operações das forças policiais.

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As imagens de videovigilância mostram Michel Zecler, um produtor negro a ser violentamente espancado por três polícias. As imagens datam de sábado e foram registadas na entrada do estúdio de música de Zecler em Paris. Veiculadas esta quinta-feira pala Loopsider estão a causar uma onda de indignação em França.

O próprio presidente francês diz-se “extremamente chocado”, numa primeira reacção esta sexta-feira. A notícia marca toda a imprensa nacional e mesmo figuras públicas do desporto francês já se pronunciaram sobre o sucedido, como é o caso de Antoine Griezmann ou Kylian Mbappé.

Gerald Darmanin, o ministro do Interior, criticado por muito por ser a personificação de uma estratégia nacional de segurança sem escrúpulos, foi recebido ontem à noite por Emmanuel Macron, que lhe pediu processos exemplares contra estes polícias, de acordo com uma fonte governamental.

Ainda ontem à noite o ministro do Interior anunciou que tinha pedido a demissão dos quatro polícias, (o quatro é acusado de ter atirado uma granada de gás lacrimogéneo para dentro do estúdio) e acusou-os de terem “manchado o uniforme da República”.

Os polícias em estão suspensos desde ontem e são alvo de um processo por “violência” e “falsificação de documento público”.

O secretário-geral do sindicato dos comissários da polícia, David Le Bars, já veio a público pedir “rapidez à justiça” de forma a terminar com uma polémica que consiste em “fazer crer” que toda a polícia é violenta.

Racismo e violência “estrutural” dentro da polícia francesa

Segundo Michel Zecler, que apresentou queixa, a polícia chamou-o, por várias vezes, de "negro sujo". Depoimento que levanta a questão do racismo e violência “estrutural” dentro da polícia francesa.

Michel Zecler foi inicialmente colocado sob custódia policial por "violência contra pessoa que detém autoridade pública" e "rebelião". Processo entretanto encerrado pelo Ministério Público.

As imagens deste episódio formam divulgadas dias depois do brutal desmantelamento, na segunda-feira, de um campo de migrantes instalados no centro de Paris. Vídeos que dão conta do “uso desproporcional da força” por parte das autoridades.

Tanto o espancamento de Michel Zecler, como o desmantelamento do campo de migrantes, acontecem numa altura em que o país discute a polémica lei da “segurança global” que proíbe o registo vídeo da polícia em exercício. O texto já foi aprovado pela Assembleia Nacional, mas precisa ainda de ser apreciado pelo Senado.

O documento é contestado pelos jornalistas que o consideram ser um atentado à liberdade de imprensa.

Elogiado pelos sindicatos da polícia e apoiado pela direita e extrema-direita, o artigo 24 deste projecto de lei pune com um ano de prisão e 45.000 euros de multa a divulgação de “imagens do rosto ou qualquer outro elemento de identificação” de membros das forças de segurança em intervenção, quando isso “comprometa” a sua “integridade física ou mental”.

A esquerda e os defensores das liberdades públicas veem a lei como "um ataque desproporcional" à liberdade de informar e o sinal de um desvio autoritário da presidência de Emmanuel Macron.

Para acalmar os ânimos, o primeiro-ministro Jean Castex anunciou na noite de quinta-feira a criação de uma "comissão independente encarregue de propor uma nova redacção" do polémico artigo da lei.

 

 

 

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