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Ruanda : Hubert Védrine diz que França foi "o único país a tentar conter a guerra civil"

Hubert Védrine, antigo secretário-geral do Eliseu e antigo ministro dos Negócios Estrangeiros.
Hubert Védrine, antigo secretário-geral do Eliseu e antigo ministro dos Negócios Estrangeiros. RFI

Depois das acusações, a resposta. Hubert Védrine, que foi secretário-geral do Eliseu de François Mitterrand, insiste que o relatório Duclert sobre o papel de França antes e durante o genocídio no Ruanda afasta a ideia de cumplicidade no genocídio. No entanto, o relatório aponta “um conjunto de responsabilidades pesadas e esmagadoras” no seio do Estado francês e alerta que a França se manteve “longamente ao lado de um regime que encorajava massacres racistas” e que se “manteve cega perante a preparação de um genocídio pelos elementos mais radicais".

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"O relatório afasta claramente qualquer ideia de cumplicidade da França no genocídio. Era uma acusação idiota, monstruosa e falsa. Mas é importante que o relatório o diga. Além disso, é bastante objectivo sobre a Operaçao Turquesa que foi decidida pelas Naçoes Unidas, nao nos esqueçamos. Além disso, o relatório não me atribui nenhum papel em tudo isto que eu acompanhei, que defendo e que tento explicar. Mas nunca fui decisor neste caso. Não digo isto para descartar a minha responsabilidade porque penso que a França é o único país no mundo a ter tentado conter a guerra civil", declarou à RFI Hubert Védrine que foi secretário-geral do Eliseu de François Mitterrand.

No entanto, o relatório aponta “um conjunto de responsabilidades pesadas e esmagadoras” no seio do Estado francês e alerta que a França se manteve “longamente ao lado de um regime que encorajava massacres racistas” e que se “manteve cega perante a preparação de um genocídio pelos elementos mais radicais". O presidente da Comissão que redigiu o relatório, Vincent Duclert, insistiu que mesmo que a França não tenha estado directamente implicada no genocídio, contribuiu para reforçar o racismo e o excesso de armamento do Ruanda.

"No final de 1993, a França deixa o Ruanda e não há mais militares franceses no Ruanda, apenas alguns assistentes militares técnicos. Quando começa o genocídio em Abril de 1994, não há forças francesas no Ruanda. A França não esteve implicada na fase mais aguda do genocídio, mas contribuiu para reforçar este desvio racista, este excesso de armamento do Ruanda. O exército ruandês passa de 5.000 homens para 25.000 homens. E quando você forma 25.000 homens, também forma milícias. A França não teve consciência da gravidade da sua política. É preciso pensar no significado do que foi feito", disse à RFI Vincent Duclert.

O relatório de 1200 páginas baseado em perto de 8.000 documentos, foi entregue na sexta-feira ao Presidente francês Emmanuel Macron, vinte e sete anos depois do genocídio de cerca de 800 mil Tutsis pelo regime Hutu.

 

O que diz o Relatório Duclert:

Na conclusão do relatório intitulado “A França, o Ruanda e o genocídio dos Tutsis (1990-1994)” pode ler-se que “nada nos arquivos consultados aponta para uma vontade de França em associar-se a um genocídio”. No entanto, os investigadores alertam que “a França manteve-se longamente ao lado de um regime que encorajava massacres racistas” e que se “manteve cega perante a preparação de um genocídio pelos elementos mais radicais deste regime”.

« Ela [a França] adoptou um esquema binário opondo, por um lado, o amigo Hutu, representado pelo Presidente Habyarimana, e pelo outro, o inimigo classificado como “ugandês-tutsi” para designar o FPR [Frente Patriótica Ruandesa]. Na altura do genocídio, ela [a França] tardou em romper com o governo interino que o realizava e continuou a colocar a ameaça do FPR no topo das suas preocupações”, pode ler-se no relatório.

Os investigadores acrescentam que a França “reagiu tardiamente com a operação Turquesa que permitiu salvar muitas vidas, mas não as da grande maioria dos Tutsis do Ruanda, exterminados nas primeiras semanas do genocídio”. A comissão escreve assim que “a investigação concluiu um conjunto de responsabilidades pesadas e esmagadoras”.

O jornal Le Monde resume que “as linhas de força do documento descrevem, basicamente, um naufrágio político, militar, diplomático, administrativo, intelectual e ético de França, assim como uma cegueira ideológica de François Mitterrand e dos seus conselheiros. Um episódio que revelou os estereótipos coloniais e uma leitura puramente étnica que irrigaram a política africana de França”.

O relatório estudou perto de 8.000 documentos, notas manuscritas, telegramas diplomáticos, análises de conselheiros, sínteses de conselhos restritos de defesa, que vão passar a estar à disposição dos investigadores e do público, de acordo com a promessa de Emmanuel Macron de ultrapassar “o bloqueio memorial, político e de arquivos” sobre o Ruanda.

No entanto, a comissão reconhece que “muitos documentos escaparam”, como os arquivos de Jean-Christophe Mitterrand, filho do Presidente e conselheiro para África até Julho de 1992, assim como, por exemplo, os arquivos da Legião de Honra sobre a promoção de figuras do regime de Kigali e de franceses que tiveram condecorações ruandesas, nomeadamente altas patentes militares.

Faltam, ainda, os arquivos do Estado-Maior Particular de François Mitterrand no Eliseu, tanto mais que o chefe de Estado francês tinha uma relação fraterna com o seu homólogo ruandês Juvénal Habyarimana. Muitos arquivos desapareceram na altura, outros foram desaparecendo, de acordo com o jornal Le Monde. Até porque uma nota dos serviços secretos de 11 de Maio de 1994 avisava: “Há um grande perigo que a França (...) apareça como cúmplice do actual governo ruandês.”

O relatório descreve que “as autoridades francesas mostraram uma cegueira contínua no seu apoio a um regime racista, corrupto e violento, concebido como um laboratório da nova política francesa em África introduzida pelo discurso de La Baule", pronunciado por Mitterrand em Junho de 1990.

De notar ainda que o documento aponta “a implicação muito grande dos militares franceses na formação das Forças Armadas Ruandesas” de Outubro de 1990 até Abril de 1994.

A comissão Duclert também sublinha que a abordagem política na altura variou entre “a minimização dos factos ou simplesmente um silêncio cúmplice”. E conclui: “A realidade foi um genocídio que arrastou os Tutsis para a destruição e o terror. Nunca os esqueceremos.”

 

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