França/Imigraçao

Governo francês endurece política contra ciganos

Acampamento ilegal de nômades no leste da França.
Acampamento ilegal de nômades no leste da França. Reuters

O governo francês vai endurecer sua política de extradição de ciganos para a Romênia e a Bulgária e de demolição de acampamentos ilegais. O anúncio foi feito na quarta-feira à noite no final de uma reunião extraordinária que o governo convocou para tratar da questão dos ciganos e dos nômades ou "população viajante", termo administrativo usado pela legislação francesa.

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O ministro do Interior, Brice Hortefeux, anunciou a demolição de metade dos acampamentos ilegais de ciganos em três meses. Segundo estimativas do governo, existem pelo menos 300 acampamentos não-autorizados localizados em sua maioria nas periferias. Para Hortefeux, muitos desses locais são conhecidos pontos de "exploração infantil, prostituição ou deliquência".

Argumentos que também são empregados pelo secretário de Estado francês para Assuntos Europeus, Pierre Lellouche, para justificar o endurecimento da ação policial na França. Lellouche afirma que vários membros da comunidade cigana estão envolvidos no tráfico de crianças e na mendicância.

Hortefeux anunciou também a transferência "praticamente imediata" para a Romênia e a Bulgária de ciganos que cometeram delitos.Para isso, as autoridades francesas esperam contar com policiais romenos e búlgagos que ajudarão na identificação das pessoas e no desmantelamento dos acampamentos. O governo francês vai além e promete ainda reativar um sistema de arquivamento de impressões digitais para impedir que os ciganos expulsos por estarem em situação irregular retornem ao território francês. Agentes do fisco francês serão o outro braço dessa operação . Eles vão vistoriar se os veículos e caminhões estacionados nesses acampamentos têm a documentação legalizada.

Do lado romeno, as medidas contra os ciganos, também conhecidos coRoms, geraram mal-estar. Para Bucareste, apesar da pressão de Paris, o governo romeno não pode impedir os ciganos romenos de deixarem a Romênia e imigrarem já que eles são cidadãos europeus e, por isso, têm o direito de livre circulação.

Reações

A reunião desta quarta-feira foi uma resposta do governo à "escalada de violência" em Saint-Aignan, no centro da França, depois que a polícia matou um jovem cigano durante uma perseguição.
A convocação desse encontro foi alvo de críticas da oposição e também de organizações de direitos humanos que afirmam que, com o gesto,o presidente Nicolas Sarkozy estigmatiza essas populações ao associá-las diretamente a atos criminosos e à violência.

Na avaliação da Anistia Internacional, o governo francês corre o risco de perpetuar estereótipos negativos sobre os ciganos e os nômades em geral. Para o Partido Socialista, os conflitos em Saint-Aignan deveriam ser tratados apenas como atos de vandalismo e Sarkozy não deveria usar o caso com propósitos "populistas e demagógicos".

A questão suscita polêmica há bastante tempo. Os nômades, embora sejam na sua maioria cidadãos franceses, são submetidos a uma legislação específica e bastante restritiva em relação à livre circulação no território francês. Para as associações de defesa dessa população, isso é um absurdo já que, mesmo morando em acampamentos, essas pessoas são cada vez mais sedentárias e os filhos frequentam regularmente a escola. Uma lei obriga que as cidades com mais de 5 mil habitantes destinem terrenos para a instalação dos trailers, mas ela é raramente cumprida, reclamam as ONGs.

Já o caso dos ciganos, o problema é mais complexo. Muitos são originários da Romênia, da Bulgária e dos bálcãs. Nesses países, eles já sofrem com forte discriminação e seus acampamentos precários são alvos frequentes de intervenções policiais. Na Europa, os ciganos representam maior minoria étnica com 10 milhões de pessoas, 90% delas são sedentárias. Em 2009, 10 mil foram expulsos da França.

 

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