Eleições/França

Eleitores de extrema-direita rejeitam Sarkozy e votam em Hollande

Marine Le Pen celebra o resultado das presidenciais neste domingo.
Marine Le Pen celebra o resultado das presidenciais neste domingo. REUTERS/Pascal Rossignol

Pesquisas mostram que parte do eleitorado da candidata de extrema-direita Marine Le Pen, que obteve 17,9% dos votos no primeiro turno das eleições presidenciais francesas, vão votar no candidato do Partido Socialista, François Hollande. Mesmo que ideologicamente a escolha pareça incoerente, a decisão é uma sanção contra a política do presidente Nicolas Sarkozy.

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Com colaboração de Murilo Salviano

Uma pesquisa divulgada pelo Instituto francês Logica Business, realizada logo após o primeiro turno das eleições presidenciais francesas, mostrou que cerca de 18% dos eleitores do partido de extrema-direita Frente Nacional devem votar no candidato do Partido Socialista, François Hollande. A legenda obteve 17,9% dos votos no primeiro turno das eleições presidenciais francesas.

Longe de representar uma virada ideológica, essa escolha de alguns dos partidários de Marine le Pen é estratégica. Muitos acreditam que a derrota de Sarkozy, que disputa o segundo turno contra o candidato do PS, e a derrocada do UMP, partido do presidente, pode beneficiar a extrema-direita nas próximas eleições presidenciais. O objetivo seria repetir o cenário de 2002, quando Jean Marie Le Pen enfrentou o então candidato Jacques Chirac no segundo turno.

Nas redes sociais, os pró-Marine Le Pen que decidiram votar em François Hollande não escondem a verdadeira motivação: mostrar o descontentamento com a política de Nicolas Sarkozy. O assunto se transformou em um dos tópicos mais acessados da página Comitê de Apoio à Candidatura de Marine Le Pen no Facebook. "A França deve saber que Hollande será eleito graças aos eleitores do Frente Nacional, mas por outro lado vamos tomar o lugar do UMP", escreve um internauta. Um posicionamento que ganha aliados entre os militantes. Eles acreditam  que um enfraquecimento do partido de Sarkozy em caso de vitória do partido Socialista, deixaria os eleitores de direita orfãos.

O eurodeputado Bruno Gollnish, ex-diretor de campanha de Jean Marie Le Pen, reitera a tese que aponta uma decepção do eleitorado do partido de extrema-direita contra Sarkozy, que disputa a reeleição. "Sem dúvida alguns deles vão votar para François Hollande para ir contra Nicolas Sarkozy. Eles acham, com razão, que foram enganados por Sarkozy", declara.Gollnish lembra, entretanto, que a tendência geral é a abstenção. Marine Le Pen deve se pronunciar oficialmente sobre o assunto no dia 1 de maio, como os outros candidatos. "Alguns votarão em Nicolas Sarkozy, outros em Hollande, mas uma grande parte vai se abster", conclui Gollnish.

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Quem votou em Marine Le Pen ?

O eleitor de extrema-direita na França, de acordo com a pesquisa do Instituto Logica, são homens, moram no norte e no sul da França, tem em média 40 anos, não têm curso superior, e integram a classe operária. Os trabalhadores das fábricas francesas e agricultores representam quase 30% dos votos, de acordo com os dados desse mesmo estudo.

A representante do Frente Nacional também ganhou popularidade entre as mulheres, segundo as pesquisas.É o caso da agricultora Alexandra, de Henin Beaumont, no Nord Pas de Calais, onde a candidata de extrema-direita obteve 35,5% dos votos. "Não tenho vergonha de dizer : votei na Marine Le Pen e toda minha família votou em Marine Le Pen", declarou em entrevista à RFI. Essa é uma das diferenças pálpaveis que o resultado das eleições vem confirmar : os eleitores de extrema-direita francesa, antes anônimos, agora assumem suas ideias contra a imigração e a integração europeia publicamente.

Alain Cartau, aposentado, eleitor de Marine Le Pen

O aposentado Alain Cartau por exemplo, defende o fim do euro. "Há problemas que apenas Marine Le Pen poderá resolver. Problemas relacionados à imigração, mas também econômicos, porque o euro está condenado, e há uma luta importante contra o terrorismo, que é importante." Mesma opinião de uma eleitora aposentada, que preferiu não se identificar. "Ela tem razão em muitas coisas. Quando não há emprego, não podemos abrir as fronteiras. Isso não é racismo, é só que os franceses não tem mais trabalho, nem onde trabalhar", conclui.

Brasileiros clandestinos temem avanço da extrema-direita

A brasileira Cláudia*, que vive clandestinamente na França há sete anos, acompanhou os resultados das eleições e teme o futuro no país. Há anos ela tenta obter um visto de permanência, que ainda não foi autorizado pelo governo francês. "Com certeza ela vai prejudicar os estrangeiros, e não é só isso, ela também é contra o euro. Essa eleição mostrou que Marine Le Pen ainda pode ir longe, e quem pensa como ela vai se preparar para reunir ainda mais votos a seu favor em uma próxima vez." 

Claudia, brasileira que vive clandestinamente na França

"Tenho vergonha desse resultado"

Para alguns franceses, o avanço Marine Le Pen exige uma reflexão da sociedade. O engenheiro Denis Roy, que vive em Paris, diz ter "vergonha" do desempenho do partido de extrema-direita. "Em 2002, quando Le Pen foi para o segundo turno, foi um choque para todo mundo, e tenho a impressão agora que não aprendemos a lição. Marine Le Pen aparece melhor na TV, e tem um discurso menos extremista, mesmo tendo ideias perigosas, e isso incomoda menos as pessoas." Segundo ele, Sarkozy também é parcialmente responsável, tentando atrair o eleitorado de extrema-direita ao radicalizar seu discurso contra a imigração.

Denis Roy, engenheiro

RFI

 

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