França/Hollande

Em rede nacional, Hollande responde críticas da população e reconhece ter cometido erros

O presidente François Hollande respondeu às críticas durante o programa de televisão nesta quinta-feira.
O presidente François Hollande respondeu às críticas durante o programa de televisão nesta quinta-feira. TF1

Submetido a uma bateria de críticas, seja de jornalistas, seja de cidadãos que foram convocados a fazer perguntas diretamente ao presidente, François Hollande adotou um tom defensivo durante mais de uma hora e meia de entrevista que concedeu em rede nacional na noite desta quinta-feira (7). A sabatina marcou a metade de seu mandato de cinco anos e um momento de queda de popularidade recorde do socialista.

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Os primeiros minutos do programa parecem ter sido pensados para desestabilizar emocionalmente o presidente. Todas as questões sensíveis envolvendo a vida pessoal e seu comportamento foram despejadas na sequência pelo jornalista Thierry Demaizière, da rádio RTL, que transmitia o programa, ao vivo, em parceria com o canal de televisão TF1, o principal do país. “O senhor pensou que seria desse jeito, mesmo em seus piores pesadelos?”, “Há dois anos e meio o senhor é criticado na sua vida pessoal e pública. Isso lhe toca de alguma forma? Pois parece que não toca.” “O tempo passa e não sabemos mais quem é o senhor. Há dois anos e meio, era simpático e próximo das pessoas. Hoje parece ser insensível e enigmático. O poder lhe transformou?”, “Dizem que o senhor não está à altura do cargo. O senhor cometeu erros?”

A reação de Hollande foi digna de uma sessão de terapia. Depois de ironizar ("Você diz isso porque minha gravata está torta?”), o chefe de Estado deu a entender que sofre bullying dos meios de comunicação. Usou o exemplo da chuva, lembrando que a imprensa costuma dizer que em grande parte dos eventos que ele participa a meteorologia não ajuda. “Querem que eu controle a chuva?”. E desabafou: “Sou um homem normal. Tenho um coração, um espírito, pensamento e emoção. Mas tenho que guardar uma forma de pudor. Eu não sou masoquista, claro que prefiro elogios a críticas”.

O caso de traição, que levou sua ex-mulher Valérie Trierweiler a abandoná-lo, foi mencionado de forma oblíqua: “Há uma imagem que chocou os franceses, a do presidente com um capacete de scooter na capa de uma revista de fofocas”, disse Demaizière. “Se eu estivesse de bicicleta ou carro, qual a diferença? Existe vida privada”, rebateu Hollande. “Mas o senhor não conseguiu tratar a sua vida privada como privada. Qual a sua responsabilidade nisso?”, retrucou o jornalista. “É preciso respeitar a intimidade”, insistiu o chefe de Estado, alegando ser contra a “vulgaridade”.

Desemprego

O presidente reconheceu suas falhas durante essa primeira metade do mandato. Um desses “erros” teria sido prometer que o desemprego diminuiria no país já em 2013.

Perguntado se tentaria reeleição, foi vago: “Eu quero pelos dois anos que me restam ir até o fim nas reformas e deixar o meu país mais forte. E no final dos cinco anos, seja qual for a minha decisão, seja qual for o veredicto dos franceses sobre mim, eu quero me olhar no espelho e me perguntar: será que fiz o que deveria fazer como presidente durante estes cinco anos?”. Mas o chefe de Estado assinalou que caso o país não registre uma queda no desemprego até o final de seu mandato, ele não pretende se candidatar em 2017. “Você acha que se eu não conseguir eu irei me apresentar? Os franceses seriam implacáveis e eles teriam razão”.

O presidente também disse ser favorável à candidatura de Paris para sediar os Jogos Olímpicos de 2024, o que, segundo ele, permitiria a criação de "muitos empregos". Desde sua eleição, em 2012, a França registrou meio milhão de desempregados suplementares em suas estatísticas.

Cidadãos debatem com presidente

Fazendo jus ao nome do programa, intitulado “Ao vivo com os franceses”, depois de uma primeira rodada de perguntas dos jornalistas, o presidente foi questionado por quatro cidadãos que representavam diferentes categorias sócio-econômicas do país. Uma desempregada de 60 anos, uma micro-empresária, um jovem e uma agricultora abordaram temas delicados, como a falta de trabalho para os idosos, a alta de impostos e as dificuldades para os franceses que entram no mundo profissional.

O confronto mais difícil foi com a empresária Karine Charbonnier, que contestou a complexidade administrativa da França. Aparentemente pouco intimidada com o cara a cara com o presidente, ela pediu medidas de competitividade e citou os exemplos do Reino Unido e da Alemanha. “Se eu terceirizasse minha atividade para esses países, economizaria € 3 milhões”, afirmou.

Sobre o tema, Hollande prometeu que “a partir do ano que vem, não haverá impostos suplementares para ninguém”. O presidente já havia garantido em outros discursos que iria reduzir os encargos em 2015.

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