Israel/Brasil

Reação "equivocada" de governo israelense reforça posição brasileira

Palestino reage a um ataque de Israel em Gaza.
Palestino reage a um ataque de Israel em Gaza. REUTERS/Suhaib Salem

Em resposta à decisão da diplomacia brasileira de convocar o seu embaixador em Tel Aviv, o porta-voz do governo de Israel, Yigal Palmor, usou a ironia. “Desproporcional é perder uma partida de futebol por 7 a 1", disse, em entrevista ao Jornal Nacional. Essa declaração, porém, fez com que o Brasil ganhasse aliados e Israel ampliasse o leque de desafetos, dizem analistas entrevistados pela RFI.

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Ao convocar o embaixador do Brasil em Israel para consultas, Brasília passou uma mensagem clara na linguagem da diplomacia : o país expressou seu descontentamento com a ofensiva militar israelense contra o Hamas na Faixa de Gaza. Em nota, o governo brasileiro condenou “energicamente o uso desproporcional da força por Israel na Faixa de Gaza, do qual resultou elevado número de vítimas civis, incluindo mulheres e crianças”. No comunicado, o Ministério das Relações Exteriores do Brasil também reiterou “seu chamado a um imediato cessar-fogo entre as partes”.

Para o governo israelense, porém, o gesto brasileiro “não contribui para encorajar a calma e a estabilidade na região". Em declaração ao The Jerusalem Post, o porta-voz do governo de Israel, Yigal Palmor, afirmou que a medida "era uma demonstração lamentável de como o Brasil, um gigante econômico e cultural, continua a ser um anão diplomático". Para piorar a situação, Palmor usou a derrota do Brasil para a Alemanha na Copa do Mundo de futebol como argumento em uma discussão diplomática.

Argumentos triviais

Para especialistas em Relações Internacionais, essa reação de Israel teve, na verdade, um efeito inverso. Ao usar argumentos tão triviais para debater um assunto tão grave como as mortes de civis em Gaza, a imagem da diplomacia israelense é prejudicada, avalia o cientista político Alfredo Valladão. "O governo israelense atual é extremamente radical. Esse tipo de declaração não representa uma diplomacia calma ou razoável. A diplomacia israelense sai arranhada [desse episódio]", ponderou.

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“A nota de Israel foi muito prepotente e incluiu um sarcasmo ao falar sobre o jogo do Brasil. Essa menção ao futebol acaba colocando de uma forma geral o Brasil, e não o governo brasileiro. Essa reação equivocada, que deveria ser uma resposta, acabou virando o objeto”, disse o professor de Relações Internacionais da PUC-SP, Reginaldo Nasser. Ou seja, essa resposta de Israel acabou reforçando ainda mais o argumento de que a decisão da diplomacia brasileira ao condenar a intensidade dos ataques israelenses foi acertada.

Na próxima semana, a ofensiva das forças de Israel na Faixa de Gaza será um dos temas em discussão dos líderes do Mercosul em uma reunião que acontece em Caracas. Na semana passada, o Equador também havia convocado o seu embaixador em Israel para consultas.

Anão diplomático

Ainda segundo Nasser, a reação de Israel mostra que o Brasil está longe de ser um “anão diplomático”. Para ele, na verdade, o país se importa – e muito – com a política externa brasileira. Prova disso é o interesse da mídia israelense pelo tema. “[Os jornais] Haaretz e Jerusalém Post colocaram a posição brasileira na primeira página”, destaca Nasser.

Para Valladão, a troca de farpas entre Israel e o Brasil não deve comprometer o futuro da relação entre os dois países. O cientista político lembra que o Brasil foi um dos primeiros países a apoiar a criação do Estado de Israel. Além disso, os dois lados têm importantes acordos de cooperação, inclusive na área militar. "Essa celeuma é apenas conjuntural", sintetizou.

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