Jornal francês chama "Petrolão" de operação "Mãos Limpas" à brasileira

Othon Zanoide, (2° da esq para dir.), executivo da Queiroz Galvão, deixa a sede da Polícia Federal, em Curitiba
Othon Zanoide, (2° da esq para dir.), executivo da Queiroz Galvão, deixa a sede da Polícia Federal, em Curitiba Foto: Reuters

Em uma página inteira dedicada às investigações na Petrobras e às repercussões para a presidente Dilma Rousseff, o jornal Libération desta quinta-feira (27) compara o trabalho da Polícia Federal e da justiça à operação italiana nos anos 90 de combate à corrupção envolvendo a máfia. Para o jornal, o escândalo prejudica a presidente brasileira e o Partido dos Trabalhadores.

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Segundo Libé, ao reagir ao escândalo que atinge a gigante brasileira do petróleo, a presidente lançou uma operação que está se voltando contra seu próprio partido, o PT. O título resume o teor da reportagem: "Dilma cai na sua própria armadilha anticorrupção".

"Será o fim da impunidade como afirma Dilma Rousseff?", questiona o jornal ao se referir à declaração da presidente. Nunca antes na história do Brasil, as empreiteiras, que sempre estiveram no centro do esquema de corrupção política, segundo o jornal, foram incomodadas. Por isso, o caráter histórico da operação da Polícia Federal no dia 14 de novembro, que ganhou ares de operação "Mãos Limpas" à brasileira, escreve a correspondente do jornal em São Paulo, Chantal Rayes.

A reportagem lembra que 21 dirigentes das maiores empreiteiras do país, todas envolvidas no escândalo de lavagem e desvio de dinheiro que atinge a Petrobras, foram presos e detidos para prestar depoimentos. "Pela primeira vez os corruptores são tratados com o mesmo rigor dos corrompidos", declarou o cientista político Marco Antonio Carvalho Teixeira, citado pelo jornal.

Libé explica que as empreiteiras são acusadas de pagar suborno para garantir contratos e que entre 1 a 3% das comissões eram destinadas a alimentar o caixa 2 do PT, partido da presidente, e de outros dois partidos aliados, o PP e o PMDB.

Mais transparência com dinheiro público

Entrevistado pelo jornal, o fundador da ONG Contas Abertas defende que todos os contratos públicos no país passem pelo mesmo pente fino visto agora no escândalo da Petrobras. Gil Castello Branco ainda acusa a presidente Dilma Rousseff de querer ser a "protagonista" da luta contra o corrupção, apesar de seu partido ter "institucionalizado a prática de corrupção com as empreiteiras".

O jornal lembra que, depois da chegada ao poder do PT em 2003, a Polícia Federal se tornou mais ativa e age com autonomia, apesar de estar vinculada ao ministério da Justiça. "O reforço das instâncias de controle da corrupção acabaram se voltando conta o próprio PT", analisa o politólogo Teixeira.

Apesar do "Petrolão", como é chamado o escândalo, a presidente Dilma Rousseff conseguiu se reeleger e agora  vai lutar para impor uma reforma anticorrupção no país, seu grande compromisso depois da revolta popular em 2013, escreve Libération.

Considerada crucial, a reforma defendida por Dilma pretende que as campanhas políticas recorram apenas a dinheiro público e não de empresas privadas, para evitar pressão sobre os políticos eleitos.
 

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