Imprensa analisa denúncia de Manuel Valls sobre um "apartheid" na França

Jornal Le Monde deste domingo (25) se pergunta se a França vive um apartheid.
Jornal Le Monde deste domingo (25) se pergunta se a França vive um apartheid. Reprodução/LeMonde.fr

Os principais jornais franceses que chegaram às bancas neste sábado (24) analisam a denúncia feita pelo primeiro-ministro Manuel Valls, na última terça-feira, sobre a existência de um "apartheid" na França. Em coletiva de imprensa, o chefe de governo declarou que o país vive um "apartheid territorial, social e étnico" imposto, segundo Valls, "pela miséria social e as discriminações cotidianas" por uma parte da população que não tem um sobrenome francês, pele branca ou até mesmo por ser mulher.

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A declaração do primeiro-ministro, que compara a estigmatização da população muçulmana francesa à política abertamente segregacionista na África do Sul de 1948 a 1991, provocou vivas reações na sociedade francesa, indica o jornal Le Monde. Mas, para o diário, "se as palavras dos responsáveis políticos são cada vez mais fortes é porque a situação que eles denunciam não melhorou nos últimos 30 anos".

Le Monde publica o resultado de uma pesquisa realizada pelo instituto Odoxa, que aponta que 54% dos franceses está de acordo com a declaração de Valls. E sustenta essa ideia lembrando que desde o atentado contra a redação da revista Charlie Hebdo, no dia 7 de janeiro, 128 atos islamofóbicos foram registrados na França - o mesmo número de atos registrados em todo o ano de 2014.

Já o diário conservador Le Figaro, sempre crítico ao governo socialista, estima que o primeiro-ministro gosta de fazer declarações chocantes, "às vezes tão deslocadas que preocupam", avalia em seu editorial. Le Figaro acredita que foi um erro do premiê dar a entender que a França aplica uma política de Estado racista, embora reconheça que o país passa por vários problemas que atribui à "política de integração ingênua e demagoga" dos socialistas. Para o jornal, é necessário que o governo invista em missões educativas, sociais e de integração, "valorizando os fundamentos do modelo francês sem ter que se acomodar às pretensões daqueles que se recusam a se submeter a ele".

Prioridade é reforma na educação

O jornal progressista Libération entrevistou a secretária de Estado encarregada das políticas municipais, Myriam El Khomri. Segundo Libération, é graças ao trabalho dela que Valls pôde chegar à conclusão do "apartheid" na França. Desde os atentados, Myriam realiza um trabalho nos bairros e municípios mais pobres da região parisiense. Para ela, a prioridade no momento é reformar a educação.

Questionada pelo Libé se as periferias foram esquecidas durante os dois primeiros anos de mandato do presidente François Hollande, ela responde que os socialistas vêm se esforçando para integrar essa parcela da população, sobretudo com a criação de empregos públicos destinados às áreas mais necessitadas. No entanto, a secretária avalia que "é preciso agir muito mais rápido e ir muito mais longe" para resolver o problema.

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