França e Vaticano travam guerra silenciosa por causa da indicação de embaixador homossexual na Santa Sé

Reportagem do jornal francês Libération sobre a queda de braço entre a França e o Vaticano.
Reportagem do jornal francês Libération sobre a queda de braço entre a França e o Vaticano.

O jornal de esquerda Libération chegou às bancas nesta segunda-feira (1) com um novo projeto gráfico e editorial. Uma nova fórmula que pretende, segundo a direção do diário, "defender os valores de um jornalismo livre, crítico e impertinente". Um dos destaques da edição reformulada é uma reportagem sobre a queda de braço entre o presidente francês, François Hollande, e o Papa Francisco em torno da nomeação do embaixador francês no Vaticano. O diplomata indicado é gay e, por essa razão, não teria sido aprovado pela Santa Sé.

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Libération relata "uma verdadeira guerra diplomática, fria, silenciosa e discreta" em torno da indicação de Laurent Stefanini, chefe do protocolo no Palácio do Eliseu, ao cargo de embaixador da França no Vaticano. O diplomata de carreira teve seu nome proposto pelo governo socialista no mês de janeiro, mas até hoje Paris não obteve resposta, só um "silêncio repleto de significado".

Stefanini é um diplomata de carreira apreciado pelos colegas do Ministério das Relações Exteriores, homossexual discreto, católico fervoroso e profundo admirador do Vaticano. O sonho do alto funcionário era encerrar a carreira no prestigioso posto romano. Segundo o Libération, tanto o governo socialista quanto a oposição de direita consideram o diplomata perfeitamente capacitado para representar o país na Santa Sé. Porém, por incrível que pareça, o alto escalão do Vaticano, por meio de interlocutores variados, fez as autoridades francesas compreenderem que o fato de Stefanini ser homossexual é um empecilho ao "agrément".

Conversa com o Papa não resolveu

Libération conta que o diplomata chegou a escrever uma carta ao Papa Francisco. Ele foi recebido pelo sumo pontífice em abril, para uma conversa extraoficial, mas até agora não teve o nome aprovado no cargo. O diário francês garante que o caso se tornou uma questão de honra para o presidente François Hollande, que não abre mão da indicação do diplomata. "É Stefanini ou nada", escreve o Libération sobre a posição do chefe de Estado francês.

O governo está preocupado porque existe um precedente da mesma ordem com o Vaticano. Em 2008, o ex-presidente Nicolas Sarkozy tinha nomeado um outro funcionário homossexual para um cargo em Roma, Jean-Louis Kuhn-Delforge. Porém, sob pressão da sede da Igreja Católica, Sarkozy voltou atrás e retirou a indicação de Delforge. Nesse meio tempo, a França aprovou o casamento entre pessoas do mesmo sexo, em maio de 2013, atraindo mais antipatia da ala conservadora do Vaticano.

Libération nota que Hollande tem multiplicado os gestos de simpatia para agradar ao Papa Francisco. Em recente visita a Cuba, o líder francês concedeu a medalha da Legião de Honra ao cardeal cubano Jaime Ortega, um amigo do Papa argentino. Mas a pendência permanece.

No próximo sábado, o Papa Francisco dará uma entrevista coletiva em seu retorno de Sarajevo. De acordo com o Libération, ele será questionado sobre o caso Stefanini pela imprensa mundial. O jornal considera que a imagem do Papa é afetada por esse caso de homofobia.

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