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Guiné-Bissau: Aristides Gomes também denuncia ameaças

Aristides Gomes, primeiro-ministro da Guiné-Bissau, Lisboa 6 de Junho de 2018.
Aristides Gomes, primeiro-ministro da Guiné-Bissau, Lisboa 6 de Junho de 2018. Lusa

O primeiro-ministro Aristides Gomes, que foi exonerado na sexta-feira por Umaro Sissoco Embaló mas que defende ser o único chefe de governo legítimo e saído das legislativas, denunciou que também está a ser ameaçado. Aristides Gomes disse que “a violência está a ser direccionada para assassinar principais figuras de Estado”, incluindo ele próprio. As declarações surgiram pouco depois da renúncia de Cipriano Cassamá ao cargo de Presidente interino da Guiné-Bissau.

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Aristides Gomes disse que o Palácio do Governo está ocupado por militares, bem como vários ministérios, o Supremo Tribunal e a Assembleia Nacional Popular. Afirmou, ainda, que esta manhã lhe foram levadas duas viaturas dos seus guardas, que estão a ameaçar prender os seus guardas e que os membros do seu governo estão obrigados a ficar em casa.


A violência está a ser direcionada no sentido de assassinar as principais figuras, até aqui, do Estado”, declarou, num som cedido por Charlotte Idrac, da RFI.

Declaração de Aristides Gomes


Aristides Gomes afirmou que “quem está a dirigir o país é quem tem força” para impor os seus objectivos e que "não tem de renunciar ou continuar" no posto: "o Governo trabalha quando tem condições de trabalhar e neste momento, quer queiramos, quer não, não temos condições de trabalhar. Nós estamos em casa".

Quem está a dirigir o país? A resposta de Aristides Gomes


Questionado pelos jornalistas sobre a comunidade internacional, Aristides Gomes disse que "é preciso não se precipitarem e intervirem de forma inteligente para evitar que determinadas intervenções possam aumentar o volume do fogo. Há concertações que estão em curso e penso que a comunidade internacional irá continuar a acompanhar a situação no país".


Aristides Gomes acrescentou que a Ecomib, força de interposição da CEDEAO, estacionada no país, está a respeitar os "limites legais de actuação". "Eu acho que a ECOMIB tem estado a respeitar os seus limites legais de actuação, mas naturalmente que nós fazemos parte de uma organização internacional que é a CEDEAO e que tem um compromisso connosco e com o povo da Guiné-Bissau e entre esses compromissos tem de proteger as instituições e a base da nossa Constituição", afirmou.

Aristides Gomes denunciou, também, através da sua página Facebook, uma alegada intervenção de soldados para desmantelar a equipa de vigilância do novo coronavírus, montada no ministério da Saúde.

Cipriano Cassamá renuncia ao cargo de Presidente interino por “fortes ameaças”


Cipriano Cassamá renunciou hoje ao cargo de Presidente interino, dois dias depois de ter sido empossado no Parlamento. Cassamá disse que tem sofrido "fortes ameaças" e que o faz também para salvaguardar a paz.


"Em decorrência destas fortes ameaças renuncio ao cargo de Presidente interino para que fui investido com todos os efeitos legais em salvaguarda de interesses maiores e voltar ao exercício pleno do cargo de presidente da Assembleia", afirmou Cipriano Cassamá na sua residência em Bissau, onde era visível um forte dispositivo de segurança.


Cipriano Cassamá afirmou, ainda, que a Guiné-Bissau "não pode estar em confrontações entre as forças vivas e forças militares e para salvaguardar isso e salvar os guineenses das perturbações evidentes, que possam advir", assumiu essa "responsabilidade para a consolidação da paz e da estabilidade que o povo sempre almejou".


"O povo sofreu muito e continua a sofrer, e o interesse do povo está acima dos meus interesses", disse.


Cipriano Cassamá pediu também desculpa aos militantes do seu partido, o PAIGC, liderado por Domingos Simões Pereira que apresentou um recurso de contencioso eleitoral, alegando graves irregularidades eleitorais, e ao povo guineense. Um som registado por Charlotte Idrac.

Declaração de Cipriano Cassamá

 

Segunda vice-presidente do PAIGC diz que Cipriano Cassamá foi forçado a renunciar


Em reacção, a segunda vice-presidente do PAIGC, Odete Semedo, afirmou que Cipriano Cassamá foi forçado a demitir-se do cargo de Presidente interino da Guiné-Bissau."Nós consideramos isto, a nível do PAIGC, como uma renúncia forçada", afirmou aos jornalistas à porta da residência de Cipriano Cassamá, em Bissau.


"Houve coações, intimidações, substituições, que o próprio Presidente da República interino fosse avisado ou os seus chefes de segurança fossem avisados. As pessoas foram colocadas aqui na casa dele, sem ter sido tido ou achado", declarou Odete Semedo.


A responsável disse também que "houve uma crise de pânico" e que quando as pessoas sentem a sua vida e as da sua família ameaçada têm de reagir: "Isto foi a reação do momento. Nós acreditamos que o Presidente da República interino vai calmamente repensar o país, porque o que está em causa é o país e não há nada que nos possa intimidar, ele que não se intimide porque este país é nosso, somos todos guineenses e sendo guineenses devemos ter a consciência de trabalhar para a paz e sua consolidação e para que a Guiné-Bissau seja um país desenvolvido como os outros."


A Guiné-Bissau vive mais um momento de tensão política, depois de Umaro Sissoco Embaló ter demitido na sexta-feira Aristides Gomes do cargo de primeiro-ministro e nomeado Nuno Nabian, que tomou posse no sábado.
Umaro Sissoco Embaló, dado como vencedor da segunda volta das presidenciais da Guiné-Bissau pela Comissão Nacional de Eleições, tomou posse simbolicamente como Presidente guineense na quinta-feira, numa altura em que o Supremo Tribunal de Justiça ainda analisa um recurso de contencioso eleitoral interposto pela candidatura de Domingos Simões Pereira.

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