Guiné-Bissau/Morte Leopoldo Amado

Guiné-Bissau: faleceu o historiador e académico Leopoldo Amado

Leopoldo Amado, professor doutor e historiador guineense faleceu em Dacar a 4 de janeiro de 2021.
Leopoldo Amado, professor doutor e historiador guineense faleceu em Dacar a 4 de janeiro de 2021. © CEDEAO
Texto por: Mussá Baldé
8 min

Faleceu em Dacar, no domingo, 24 de janeiro, vítima de doença súbita, o professor universitário, investigador e historiador guineense Leopoldo Amado, tinha 61 anos e era desde 2018 um destacado quadro da Comunidade Económica de Estados da Africa Ocidental. Entre muitos outros cargos ele foi investigador sénior e director-geral do INEP - Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas da Guiné-Bissau.

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Leopoldo Amado, "POIO", como era conhecido, licenciado em história em 1985 pela Faculdade Letras de Lisboa - Universidade Clássica de Lisboa, concluiu em 1987 o Curso de pós-graduação em Relações Internacionais (Estudos Islâmicos) pela extinta Universidade Internacional de Lisboa e frequentou entre os os 1987-1989 o curso de mestrado em Estudos Africanos no Institituto de Ciências Sociais e Políticas da Universidade Técnica de Lisboa, antes de regressar à Guiné-Bissau em 1989, onde desempenhou vários cargos. 

Actualmente, Leopoldo Amado era Comissário da CEDEAO para a pasta da Educação, Ciência e Cultura, cargo para o qual fora proposto em 2018 pelo então Presidente guineense, José Mário Vaz.

O historiador e professor Leopoldo Amado, de que parte da oba como historiador está ligada à luta de libertação da Guiné-Bissau e trabalhou directamente com o primeiro Presidente de Cabo Verde, Aristides Pereira, na elaboração do livro “Uma luta, um partido, dois países”, destacava-se pelo seu conhecido apego à cultura genuína guineense, um profundo conhecedor das tradições dos diferentes povos da Guiné-Bissau.

Foi jornalista e era também um exímio comentador, em diferentes órgãos de comunicação social, sobre assuntos ligados à atualidade política e social guineense.

Professor universitário, investigador sénior do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (INEP), de que chegou a ser director-geral, Leopoldo Amado interessava-se particularmente como historiador pelos Países  Africanos de Língua Oficial Portuguesa.

Nascido em Catió, no extremo sul da Guiné-Bissau, há 61 anos, Leopoldo Amado estava a desenvolver um programa, no âmbito do seu pelouro na CEDEAO, no sentido de capacitar mais os alunos guineenses, que como o próprio admitiu, estão atrasados em relação aos dos restantes 14 países do espaço da CEDEAO.

O professor Leopoldo Amado, POIO, faleceu, domingo, em Dacar, no Senegal e o seu corpo deverá ser transladado para Bissau onde será sepultado.

Perfil de Leopoldo Amado por Mussá Baldé, correspondente em Bissau

Outras notas biográficas 

Na Guiné-Bissau, a partir de 1989 quando regressou ao país, Leopoldo Amado foi investigador no INEP, que mais tarde veio a dirigir e desempenhou, sucessivamente, as funções de: Director do mensário “Baguera”; Director Comercial da na altura maior empresa privada do país a Geta-Bissau, vice-presidente da Liga Guineense dos Direitos Humanos, Director do “Tcholoná”, a única Revista Cultural então existente no país.

Em 1996, trabalhou em Bordéus e Paris como consultor da Editora Nathan e da École International de Bordeaux para a elaboração, como co-autor, do livro Anthologie Littéraire de l’ Afrique de l’ Ouest.

Nesse mesmo período foi consultor da UNICEF e da FNUAP na Planificação Estratégica por objectivos e Programação do um novo ciclo de acções e Projectos.

Em 1998 foi consultor da Amnistia Internacional em Moçambique (Maputo, Beira, Nampula, Nacala e Nacala-Porto) e Joanesburgo (África do Sul), na elaboração do relatório de 1998 sobre os direitos Humanos em Moçambique e na África do Sul.

Em 1999 e após o conflito armado de 1998 na Guiné-Bissau, trabalhou na área de Projectos como consultor contratado da AMIC (Associação dos Amigos da Criança) e da Liga Guineense dos Direitos Humanos.

Entre 1999 e 2001 foi coordenador do SPHAC - Projecto da UNESCO para a Salvaguarda do Património Histórico da África Contemporânea, do qual resultou a elaboração do livro “Uma Luta, Um Partido, Dois países”, de Aristides Pereira, primeiro Presidente da República de Cabo Verde.

Entre 2001 e 2005, foi prelector de várias conferências, seminários e colóquios na Guiné-Bissau, Portugal, Brasil, Moçambique, Angola, Cabo Verde, Senegal, Guiné-Conakri, Togo, Nigéria, Costa de Marfim e outros países.

2005/2006 foi consultor contratado da CPLP, tendo realizado um inventário crítico e comentado do espólio documental, bibliográfico e arquivístico relativo aos 10 anos da organização.

Nesse mesmo período participou na Guiné-Bissau no Exercício de Avaliação do Projecto “Compreender e ajudar as crianças Talibés”, desenvolvido em parceria pela AMIC (Associação dos Amigos da Criança e a PLAN INTERNACIONAL

Em Portugal, antes de concluir em 2007 um Doutoramento em História Contemporânea pela Universidade de Lisboa, entre 2003 e 2007 foi secretário executivo da “Guineáspora” (Fórum Mundial dos guineenses na Diáspora), tendo posteriormente ido para Cabo Verde, onde a partir de 2008 foi docente na Uni-CV (Universidade Pública).

Em 2008, foi professor convidado de História Contemporânea de África no Curso de verão em Cambrilis, promovido pela Universidade Rovira i Virgili, Tarragona, Espanha e ainda arguente principal nas provas de dissertação da tese de mestrado de Antero Monteiro Fernandes, intitulado “Guiné e Cabo Verde: da Unidade à separação”, defendida em Abril de 2008 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Entre 2008 e 2011 foi chefe de Departamento de História da Universidade de Cabo Verde e presidente da Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade de Cabo Verde- UNI-CV..

Entre 2011 e 2012 foi investigador do Centro de Estudos Sociais, da Faculdade de Economia da Universidade de Coimbra;

Em 2012, foi arguente principal nas provas de dissertação da tese de doutoramento de Maria Anabela Ferreira da Silveira, intitulado “Dos nacionalismos à guerra de libertação angolanos – 1945/1965”, defendida publicamente em Junho de 2012 na Faculdade de Letras da Universidade do Porto.

Em 2013, “Quem é o inimigo? Anatomias de guerras revolucionárias: uma análise da Guiné-Bissau“, título da comunicação apresentada no "atelier" organizado pelo CES e ainda nesse mesmo ano foi consultor/perito para Guiné-Bissau, para o novo projecto de avaliação global da democracia do departamento de Ciência Política da Universidade de Gotemburgo e a Kellogg Institute, University of Notre Dame.

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