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Do ébola ao novo coronavírus: Médico moçambicano na linha da frente

Áudio 11:50
Jeremias Naiene, Médico moçambicano ao serviço da OMS.
Jeremias Naiene, Médico moçambicano ao serviço da OMS. © Jeremias Naiene
Por: Carina Branco

O médico moçambicano Jeremias Naiene combateu o ébola na Libéria ao serviço da OMS e agora está na linha da frente contra o novo coronavírus no Iémen. O país mais pobre da península arábica enfrenta a pior crise humanitária no mundo e está devastado por mais de cinco anos de guerra. Agora, há uma outra guerra e o inimigo é invisível. Como combater o novo coronavírus e que lições tirar da luta contra o ébola? As respostas de Jeremias Naiene.

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O médico moçambicano Jeremias Naiene combateu o ébola na Libéria ao serviço da OMS e agora está na linha da frente contra o novo coronavírus no Iémen. O país mais pobre da península arábica enfrenta a pior crise humanitária no mundo e está devastado por mais de cinco anos de guerra que opõe as forças do governo reconhecido pela comunidade internacional e apoiado pela Arábia Saudita contra os rebeldes hutis apoiados pelo Irão.

Dezenas de milhares de pessoas morreram, sobretudo civis, e mais de três milhões foram obrigadas a fugir das suas casas. Actualmente, cerca de 24 milhões de iemenitas – ou seja, mais de 80 % da população – depende da ajuda humanitária, de acordo com a ONU.

Agora, há uma outra guerra e o inimigo é invisível. Como combater o novo coronavírus e que lições tirar da luta contra o ébola?

Aqui o vírus acaba de chegar. Ainda são poucos casos. Então, ainda é muito cedo para se fazer a avaliação de como é que o vírus vai reagir, mas o problema é que o sistema de saúde aqui é muito frágil, como em muitos outros países como Somália, Líbia e outros países que estão em situação de conflito”, começa por descrever Jeremias Naiene.

No Iémen, o novo coronavírus é apenas mais uma frente de batalha face a outras doenças, à fome, à falta de hospitais e condições de vida precárias em campos de refugiados.

Por vezes conversamos com pessoas, por exemplo, em campos, pessoas que estão desalojadas, e elas têm outras prioridades. Falta-lhes muitas outras coisas, têm outras doenças como cólera, dengue, chikungunya, há malnutrição...”, conta o médico de 39 anos.

Por outro lado, perante uma população fragilizada com outras doenças, ninguém sabe como se vai comportar o novo coronavírus. “Este vírus é um vírus muito novo ainda. Ninguém sabe como se vai comportar, por exemplo, em pessoas malnutridas e se houver interacção com outros vírus como dengue e chikungunya. É muito difícil fazer uma previsão. Até pode ser mesmo benéfico porque, por vezes, há factores que podem proteger as pessoas contra o vírus. Se calhar aqui a imunidade é diferente. É muito cedo para se fazer alguma previsão do que pode acontecer”, explica.

O combate ao novo coronavírus faz-se “de um modo geral, da mesma forma que nos outros países”: “Manter distância física, evitar contactos físicos, evitar lugares sobrelotados, ter medidas de higiene, lavagem das mãos, uso de gel com álcool, isolar casos e seguir os contactos.” Porém, isolar os casos positivos é muito difícil devido à rapidez de propagação do novo coronavírus.

A resposta é mais ou menos igual à do ébola e até fico contente que África tenha muito mais experiência em combater doenças como o ébola e esteja mais preparada para enfrentar o vírus, principalmente porque passaram pelo ébola – Libéria, Serra Leoa, Guiné, Congo, Uganda e por aí fora”, indica.

Embora os vírus sejam diferentes e o novo coronavírus seja muito mais “desafiante” por ter uma taxa de assintomáticos muito superior e porque a transmissibilidade começa “três dias antes de a pessoa desenvolver sintomas”, a forma de combater acaba por ser a mesma: “É detectar o caso muito precocemente, isolar o caso, listar as pessoas que estiveram em contacto com o caso, seguir os contactos a ver se algum desenvolve os sintomas e repetir o ciclo.”

 

Sobre o uso nos Estados Unidos do antiviral Remdesivir, que já tinha sido usado no ébola, para tratar doentes com covid-19, Jeremias Naiene considera que “ainda é muito cedo” porque “o remdesivir demonstrou algum efeito positivo nos primeiros ensaios” mas “o número de pessoas [nos ensaios clínicos] é um número muito pequeno”.

Sobre quanto tempo até se “vencer” o novo coronavírus, Jeremias Naiene considera que é preciso aproximadamente um ano com a chegada de uma vacina, como aconteceu com o vírus H1N1. “Tornou-se uma pandemia e, depois de aproximadamente um ano, logo que se desenvolveu a vacina, a situação ficou controlada e declarou-se o fim da pandemia”, conclui.

Oiça a entrevista completa neste programa.

Jeremias Naiene, Médico Moçambicano no Iémen

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