Economias

“A pandemia está a deixar Moçambique de rastos”

Áudio 12:27
Crianças da família de Vicente Tiago que conta 30 pessoas que fugiram dos ataques armados de Muidumbe, Cabo Delgado, e se refugiaram numa pequena casa precária na zona de Chiuba, Cidade de Pemba, 21 de Julho de 2020. É uma de milhares de famílias que carecem de ajuda alimentar na crise humanitária que afecta a província do norte de Moçambique.
Crianças da família de Vicente Tiago que conta 30 pessoas que fugiram dos ataques armados de Muidumbe, Cabo Delgado, e se refugiaram numa pequena casa precária na zona de Chiuba, Cidade de Pemba, 21 de Julho de 2020. É uma de milhares de famílias que carecem de ajuda alimentar na crise humanitária que afecta a província do norte de Moçambique. LUSA - RICARDO FRANCO

“A pandemia está a deixar Moçambique de rastos”, alerta Régio Conrado, investigador doutorando no Instituto de Estudos Políticos de Bordéus. O cenário é ainda pior no norte do país que enfrenta há dois anos e meio ataques islamistas que já fizeram pelo menos mil mortos e 250 mil deslocados. O que deve o Estado fazer, como ajudar as populações e qual é o retrato económico de Moçambique em plena pandemia de Covid-19? As respostas neste programa com Régio Conrado.

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 A FAO e o PAM alertaram que Moçambique é um dos países que deverá enfrentar a pior crise alimentar das últimas gerações. De facto, “a pandemia está a deixar o país de rastos”, alerta Régio Conrado, investigador doutorando no Instituto de Estudos Políticos de Bordéus.

"A pandemia, no contexto moçambicano, está a criar situações profundamente graves. Como sabe, em Moçambique, 80% das pessoas trabalham no sector informal, 47% das pessoas vivem abaixo da linha da pobreza, ou seja, com menos de um dólar. Com a pandemia, em que se impõem medidas restritivas, as pessoas não podem simplesmente ir para a rua e venderem.

Na província de Cabo Delgado, há uma percepção que a pandemia não é a coisa mais grave porque sabemos muito bem o que está a acontecer lá. Para o resto do país, obviamente que a pandemia está a deixar o país de rastos", descreveu o investigador.

O cenário é, de facto, ainda mais complicado no norte do país que enfrenta há dois anos e meio ataques islamistas que já fizeram pelo menos mil mortos e 250 mil deslocados.

"Eles vivem sobretudo do comércio informal. A insurreição militar islamista desestrutura o pequeno comércio, desestrutura o comércio informal, desestrutura a produção campesina e impacta as famílias que dependem deste tipo de produções.

O segundo ponto que temos é que a província depende, em grande medida, da pesca e sabemos que hoje os insurrectos também assassinam pessoas na costa, no mar, o que impede que os pescadores possam continuar com as suas actividades pesqueiras.

Por outro lado, grande parte dos provincianos de Cabo Delgado dependiam dos seus trabalhos nas instâncias turísticas. Obviamente que hoje, com esta insurreição militar, há muitas instâncias turísticas que estão fechadas. De forma geral, a questão económica da província hoje está praticamente destruída", continuou.

Face à situação de "total alarme" em que vivem milhares de deslocados, com "muitos a passar situações de fome grave",  Régio Conrado explicou que a sobrevivência destas pessoas passa pela interfamiliaridade, pela ajuda de grupos humanitários internos de Moçambique, como o movimento chamado "Eu Também Sou de Cabo Delgado" que distribui alimentos, a Comunidade de Santo Egídio, a Igreja Católica, a Cruz Vermelha, etc.

Porém, face à falta de capacidade financeira e de stocks de alimentos, o Estado deveria reconhecer "que estamos em situação de guerra e de urgência humanitária" para que organizações internacionais pudessem entrar na região e levar ajuda.

Por outro lado, "o Estado tem que fazer um grande investimento financeiro" para ajudar as pessoas que estão deslocadas. Até porque "a pandemia demonstrou a incapacidade do Estado de prover serviços sociais às suas populações, portanto alimentá-las e protegê-las do desemprego, da miséria, da míngua e de outros aspectos profundamente graves do ponto de vista social e financeiro".

"Para resumir, a questão da pandemia é gravíssima num contexto de um país profundamente pobre e sem instituições fortes  e eficientes", concluiu Régio Conrado.

"A pandemia está a deixar Moçambique de rastos"

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