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Moçambique

Moçambique em choque com morte de Dhlakama

Afonso Dhlakama, líder da Renamo, durante uma conferência de imprensa nas matas da Gorongosa em Abril de 2013.
Afonso Dhlakama, líder da Renamo, durante uma conferência de imprensa nas matas da Gorongosa em Abril de 2013. AFP FOTO / JINTY JACKSON

Moçambique acolheu em estado de choque a morte ontem de manhã do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, aos 65 anos de idade. Refugiado havia anos nas matas da Gorongosa, no centro do país, o chefe do principal partido de oposição de Moçambique tinha problemas de saúde e terá sucumbido antes de ter tido hipótese de ser transportado para uma unidade hospitalar.

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Uma caravana do seu partido foi à Gorongosa para resgatar o corpo de Afonso Dhlakama que se encontra na morgue do Hospital Central da cidade da Beira, estando agora por definir a data e o local onde será sepultado o líder da Renamo. De acordo com Manuel Bissopo, Secretário-geral da Renamo, a comissão política e a família deverão tomar a decisão final. Mais pormenores com Orfeu Lisboa.

Orfeu Lisboa, correspondente da RFI em Maputo

Na sequência da morte do líder da Renamo, Afonso Dhlakama, o conselho de ministros reuniu-se hoje numa 1ª sessão extraordinária no intuito de determinar a realização do funeral oficial do presidente do primeiro partido de oposiçao. Ana Comoana, porta-voz do Conselho de Ministros, anunciou designadamente que o Governo vai nomear uma comissão constituída por ministros para junto da família de Afonso Dhlakama e do partido Renamo para prestar o apoio necessário. A data do funeral ainda não foi divulgada e caberá à Comissão Política da Renamo, actualmente reunida na cidade da Beira, determinar o dia e o local das exéquias do seu líder. Mais pormenores novamente com Orfeu Lisboa.

Orfeu Lisboa, correspondente da RFI em Maputo

Logo que foi confirmada ontem no final da tarde a morte do líder da Renamo, começaram a afluir as reacções de pesar, designadamente do Presidente Nyusi com quem Dhlakama estava em conversações de paz. Ao recordar "um importante interlocutor no processo da construção da democracia e da estabilidade no país", o Presidente moçambicano também apelou para que "não se faça aproveitamento político" da brecha de incerteza aberta pela morte do líder da Renamo.

No mesmo sentido, Caifadine Manasse, porta-voz da Frelimo no poder em Moçambique, recordou Afonso Dhlakama como "um parceiro estratégico para a paz e estabilidade", considerou que a sua morte "é um momento de dor para os moçambicanos" e apelou a Renamo à serenidade.

Caifadine Manasse, porta-voz da Frelimo, em declarações recolhidas pela STV

Por seu turno, ao expressar igualmente pesar pela morte de Afonso Dhlakama, o antigo Presidente moçambicano Joaquim Chissano que assinou o Acordo Geral de Paz em Roma com o chefe da Renamo em 1992, refere ter guardado o contacto ainda recentemente com ele e prefere mostrar-se confiante na continuidade do processo de paz no qual Dhlakama estava empenhado com o Presidente Nyusi.

Antigo Presidente de Moçambique, Joaquim Chissano, entrevistado por Cristiana Soares

A nível internacional, foram também numerosas as reacções, designadamente por parte da União Europeia que, ao destacar o "papel histórico" desempenhado por Dhlakama na transição democrática do seu país, incitou o "governo e a Renamo a manterem o seu compromisso firme e sustentado com uma paz duradoira". No mesmo sentido, os Estados Unidos apelaram para que "os líderes da Renamo e os seus interlocutores no Governo da República de Moçambique honrem o legado de Afonso Dhlakama, ao concluir este grande projecto pelo qual dedicou os últimos anos da sua vida".

Em Portugal, depois de o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa ter apresentado ontem as suas condolências à família de Afonso Dhlakama e ao seu homólogo moçambicano, hoje o governo de Lisboa, disse fazer "votos para que o desígnio da paz seja plenamente realizado, em prol da estabilidade e desenvolvimento de Moçambique e do bem-estar do povo moçambicano". Cabo Verde também lamentou "profundamente" a morte de Afonso Dhlakama, o ministro de Estado e da Presidência do Conselho de Ministros, Fernando Elísio Freire tendo declarado esperar que "lá onde estiver, possa ver um Moçambique desenvolvido, de paz, pelo qual tanto lutou". Por seu turno, em Angola, o principal partido de oposição, a Unita, através do seu porta-voz, Alcides Sakala, considerou que "a lição que a vida de Afonso Dhlakama deixa, é de que nenhum povo deve aceitar a subjugação por sistemas totalitários seja quais forem as roupagens que esses sistemas tiverem".

Alcides Sakala, porta-voz da Unita, na oposição em Angola

A morte do líder do principal partido da oposição levanta no seio da sociedade moçambicana muitas interrogações em relação à construção de um país mais democrático e coeso. Afonso Dhlakama faleceu numa altura em que estava na fase decisiva do processo de paz efectiva com o executivo de Filipe Nyusi. Depois de ter acordado e colocado entre as mãos do Parlamento o Pacote de Descentralização, Afonso Dhlakama e Filipe Nyusi estavam a negociar a desmobilização e integração dos combatentes da Renamo nas Forças Armadas. A seguir a este processo, o líder da Renamo pretendia sair do seu refúgio na Gorongosa.

Para populares e estudiosos, este processo que fica por terminar fica fragilizado. Receia-se tensão dentro da Renamo onde se coloca a questão da sucessão e fica também em suspenso a perenidade dos avanços alcançados no diálogo entre o governo e Afonso Dhlakama. Para Michel Cahen, historiador especialista de Moçambique ligado ao Instituto de Ciências Políticas de Bordéus, nem a Renamo, nem a Frelimo têm interesse em colocar em questão o processo de paz. Relativamente à sucessão no seio da Renamo, Michel Cahen reconhece que não existe nenhum delfim evidente e que, por conseguinte, poderão surgir fricções internas.

Michel Cahen, historiador especialista de Moçambique ligado ao Instituto de Ciências Políticas de Bordéus, entrevistado por Dolly Haddad

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