Líbia/Crise

Oposição desafia Kadafi com protestos em Trípoli

Insurgentes armados com foguetes patrulham um check-point na entrada de Brega.
Insurgentes armados com foguetes patrulham um check-point na entrada de Brega. Reuters/Goran Tomasevic

Os opositores ao ditador líbio convocaram para esta sexta-feira protestos anti-Kadafi em vários bairros de Trípoli, desafiando a ameaça de banho de sangue feita pelo dirigente líbio na quarta-feira. As forças pró-Kadafi estão impedindo os jornalistas estrangeiros de cobrir as manifestações. A cidade de Brega, no leste da Líbia, sob controle dos insurgentes, foi bombardeada pelo terceiro dia consecutivo.

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O terceiro dia de ofensiva aérea das forças leais a Kadafi na rica região petrolífera do leste do país, que está sob o controle dos insurgentes, provoca questionamentos. Segundo informações vindas da região, as bombas largadas pelos aviões de Kadafi caíram em zonas desérticas, aparentemente sem causar vítimas. Observadores presentes em Brega questionam se a estratégia de Kadafi é intimidar a população, antes de lançar uma ofensiva de maior envergadura, ou se os pilotos das forças aéreas líbias obedecem às ordens de partir em missão mas evitam atacar os civis.

O regime de Kadafi quer a todo custo recuperar essa área estratégica não apenas pelo terminal petrolífero. Brega, a 800 quilômetros da capital, é um acesso estratégico que leva à Benghazi, segunda maior cidade líbia, onde teve início a revolta popular de contestação contra o regime.

Ontem, ataques aéreos também visaram as cidades de Ajdabiah, na região de Cirenaica, igualmente dominada pelos opositores ao regime de Kadafi. Do outro lado, no oeste, os moradores de Zaouiah, distante apenas 50 quilômetros de Trípoli, se preparam para uma ofensiva das forças que apoiam o regime. Os combatentes pró-Kadafi estão cercando a cidade com dezenas de blindados. A população teme a falta de alimentos e remédios. A cidade é uma das poucas na região oeste do país controlada pelos insurgentes.

Enquanto a violência se espalha especialmente no leste do país, o regime se esforça para mostrar uma imagem diferente para o mundo. Um comitê governamental responsável pela imprensa estrangeira organizou uma viagem para um grupo de jornalistas pela região oeste, onde a situação é mais tranquila e o governo mantém o controle sobre os moradores. Os jornalistas também são levados a visitar refinarias de petróleo que operam com quase toda a capacidade de produção.

Na fronteira da Líbia com a Tunísia, a mobilização da comunidade internacional para repatriar milhares de pessoas começa a dar resultado. Após três dias de caos, a situação no posto fronteiriço de Ras Jadir começa a melhorar com a ponte aérea humanitária criada a partir da cidde tunisiana de Djerba. Segundo a ONU, só nesta quinta-feira 58 voos retiraram trabalhadores egípcios que fugiram da violência no interior da Líbia através da fronteira com a Tunísia. Aviões encaminhados por diversos países europeus vão continuar a fazer trajetos diários.

Obama diz que Kadafi deve partir

Na noite de ontem, o presidente americano, Barack Obama, anunciou que aviões civis e militares de seu país também serão colocados à disposição para retirar os trabalhadores egípcios e levá-los ao seu país. Em seu discurso, Obama enviou uma mensagem, a mais dura até agora, contra o ditador líbio. Ele disse que Muammar Kadafi deveria partir imediatamente porque perdeu toda a legitimidade para governar. Questionado sobre a possibilidade de uma ação militar na Líbia, o presidente americano disse que todas as opções são analisadas, militares e não-militares.

REUTERS/Larry Downing

Apesar da pressão internacional cada vez mais forte, Muammar Kadafi, que há 41 anos governa com mão de ferro a Líbia, não dá sinais de que pretende deixar o poder. Nessa quinta-feira, o governo da Venezuela afirmou que o ditador se disse favorável à sugestão do presidente Hugo Chávez de implementar uma mediação internacional de paz.

Proposta de mediação latino-americana

O líder líbio teria aceitado a proposta de Hugo Chávez, que sugeriu, na segunda-feira, o envio de uma missão de mediação internacional, formada por representantes de países da América Latina, Europa, Oriente Médio, que tentariam negociar uma saída para a crise entre o governo líbio e os rebeldes. O próprio Chávez teria feito a sugestão para Kadafi pelo telefone, condenando qualquer tipo de intervenção militar internacional, que, segundo ele, seria uma "catástrofe."

O interesse de Kadafi de encontrar uma solução pacífica para o conflito foi confirmado nesta quinta-feira pelo ministro venezuelano da informação, Andrés Izarra. A Liga Árabe também seria favorável à ideia de Chávez, de acordo com seu secretário-geral Amr Moussa. Os Estados Unidos se disseram contrários à proposição, assim como os rebeldes.

A Líbia e a Venezuela se aproximaram nos últimos anos. Em 2009, durante uma visita de Kadafi a Caracas, Chávez declarou que os dois países estavam "unidos pelo mesmo destino, na mesma batalha contra um inimigo comum: o imperialismo americano."

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