Líbia/Crise

Kadafi acusa a França de ingerência em assuntos internos da Líbia

O ditador líbio, Muammar Kadafi, em uma entrevista concedida nesta segunda-feira ao canal de notícias France 24.
O ditador líbio, Muammar Kadafi, em uma entrevista concedida nesta segunda-feira ao canal de notícias France 24. www.france24.com

Em entrevista ao canal de notícias France 24 nesta segunda-feira, o ditador da Líbia, Muammar Kadafi, se referiu de forma irônica ao apoio da França ao Conselho Nacional Líbio, grupo de oposição formado por insurgentes no leste do país. "Chega a ser engraçado. É como se a Líbia decidisse se intrometer nos assuntos da Córsega (a ilha francesa do Mediterrâneo que tem um forte movimento separatista)", disse o coronel.

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Muammar Kadafi voltou a afirmar que a rebelião popular na Líbia é um complô contra o seu regime articulado por extremistas armados ligados à rede terrorista Al Qaeda.

"Os insurgentes de Benghazi não fazem nenhuma reivindicação econômica ou política", declarou o ditador, acrescentando que ele é um aliado da luta antiterrorista.

Kadafi tem tentado, sem sucesso, convencer o governo do presidente francês Nicolas Sarkozy a apoiar o seu regime. Em entrevista neste domingo ao diário francês Le Journal de Dimanche, o ditador líbio disse ser favorável à criação de uma comissão de investigação independente da ONU para visitar o país e sugeriu que a França coordene e dirija essa missão.

O coronel disse que a França tem muitos interesses na Líbia e deveria ser o primeiro país a enviar uma equipe de observadores. Ele afirmou não ter conversado com o presidente Sarkozy desde o início da revolta popular que tenta derrubá-lo, mas espera que o governo francês mude de opinião sobre o seu regime, lembrando que já colaborou com o presidente francês em vários assuntos.

Kadafi disse esperar que a França bloqueie na ONU a resolução do Conselho de Segurança que prevê sanções contra a Líbia, e que os franceses interfiram para por fim ao que chamou de "intervenção estrangeira em Benghazi", segunda maior cidade líbia, onde tiveram início os protestos de seus opositores.

"Não podemos mais tolerar a loucura criminosa do ditador", diz chanceler francês

Mas dificilmente seus pedidos serão atendidos. A diplomacia francesa, duramente criticada pelo papel pouco claro durante os protestos que derrubaram os ditadores Ben Ali, na Tunísia, e Hosni Mubarak, no Egito, quer agora mostrar pulso firme e liderar a pressão para tirar Kadafi do cargo.

Neste domingo, o chanceler francês, Alain Juppé, disse, durante visita ao Cairo, que a França e a Europa não podem mais tolerar o que chamou de "loucura criminosa" do ditador. O Ministério das Relações Exteriores da França reconhece e apoia plenamente o Conselho Nacional Líbio, grupo de oposição a Kadafi formado pelos insurgentes. O ministro Juppé e lideranças do Conselho Nacional trabalham juntos para criar uma zona de exclusão aérea para evitar bombardeios das forças leais ao ditador, e também reforçar um corredor humanitário para ajudar os refugiados.

Guerra civil segue intensa na Líbia

As forças fiéis a Kadafi prosseguem em sua ofensiva em direção às cidades petrolíferas do Golfo de Syrte, na região leste do país, controlada pelos insurgentes. Os combates são extremamente violentos. Na manhã desta segunda-feira, moradores de Ras Lanouf, terminal petrolífero estratégico, fugiram da cidade que foi tomada pelos combatentes anti-Kadafi, depois que as forças fiéis ao ditador invadiram a cidade vizinha, Ben Jawad, onde eles estavam entrincheirados.

As forças pró-Kadafi evoluem com o apoio de bombardeios das forças aéreas, de tanques e blindados. Médicos do hospital de Ben Jawad informaram ter visto sete mortos e mais de 50 feridos nesses combates, mas continua sendo muito difícil contabilizar o número de vítimas.

A ONU pediu a abertura de um corredor para evacuar os feridos de Misrata, 150 quilômetros a leste da capital Tripoli.

Em Genebra, a secretária-geral da ONU para Assuntos Humanitários lança nesta segunda-feira um apelo de urgência para ajudar as vítimas da guerra civil na Líbia. Em quatro semanas de conflito, o número de mortos pode ter ultrapassado seis mil pessoas.
 

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