Afeganistão/Crise política

Kerry negocia solução para impasse eleitoral no Afeganistão

Hamid Karzai, presidente do Afeganistão, se reuniu com o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, na sexta-feira (foto) e no sábado (12) a fim de negociar uma solução para o impasse eleitoral.
Hamid Karzai, presidente do Afeganistão, se reuniu com o secretário de Estado norte-americano, John Kerry, na sexta-feira (foto) e no sábado (12) a fim de negociar uma solução para o impasse eleitoral. REUTERS/Jim Bourg

O secretário de Estado norte-americano, John Kerry, realiza neste sábado (12) o segundo dia de discussões com os dois candidatos do segundo turno da eleição presidencial realizada em 14 de junho, Ashraf Ghani e Abdullah Abdullah, que trocam acusações de fraude eleitoral. Paralelamente, a embaixada dos Estados Unidos é palco de intensas negociações entre os dois rivais e suas equipes.

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Na segunda-feira, Ashraf Ghani foi apontado vencedor durante o anúncio dos resultados preliminares, com 56,4% dos votos, vencendo com folga Abdullah Abdullah (43,5%). Este último, no entanto, venceu o primeiro turno, realizado no dia 5 de abril, com uma grande vantagem - 45% dos votos, contra 31,6% para Ashraf Ghani. Por causa disso, Abdullah Abdullah considera ter sido vítima de fraude eleitoral.

O candidato derrotado estava a ponto de se declarar vencedor, mas desistiu de proclamar um "governo paralelo", como pediam alguns de seus partidários.

John Kerry, que chegou ao Afeganistão na madrugada de sexta-feira, tentou acalmar a situação e ao mesmo tempo manter a firmeza, dizendo que "ninguém deve se declarar vencedor atualmente". "Queremos um Afeganistão unido, estável, democrático" e um processo eleitoral "legítimo", acrescentou ele.

Após um longo dia de reuniões na sexta-feira com os candidatos e diferentes autoridades, incluindo o atual presidente, Hamid Karzai, e o chefe da missão da ONU, Jan Kubis, o diferendo não foi resolvido. Na tarde deste sábado, Kerry se encontrou novamente com o presidente afegão. O objetivo das negociações é chegar a um acordo sobre o número de cédulas de votação potencialmente fraudulentas que deverão ser verificadas.

Plano da ONU

Na sexta-feira, a missão da ONU no Afeganistão propôs contar novamente os votos em 8.050 locais de votação, o que corresponderia a 3,5 milhão de cédulas eleitorais. O plano das Nações Unidas foi aceito pela equipe de Ashraf Ghani, mas os partidários de Abdullah Abdullah o consideraram "incompleto".

A comissão eleitoral independente afegã havia inicialmente examinado 1.930 locais de votação (de um total de 23 mil). Mas a equipe de Abdullah exige a verificação de 11 mil.

A operação de verificação, se a proposta da ONU for aceita, permitirá examinar, por exemplo, os locais de votação que contabilizaram mais de 595 votos, ou ainda aqueles que foram administrados por homens apesar de serem reservados às mulheres.

Esse exame dos votos levaria duas semanas, segundo as Nações Unidas. O calendário eleitoral prevê a posse do novo presidente no dia 2 de agosto.

Ashraf Ghani se disse favorável a uma verificação dos votos "o mais ampla possível", enquanto Abdullah Abdullah insistiu que somente o "sucesso do processo democrático" pode permitir a seu país conservar os avanços realizados após 2001.

Conflitos étnicos

Os esforços de John Kerry mostram o quanto os Estados Unidos estão preocupados com a possibilidade de que o regime afegão, que eles gastaram bilhões de dólares para apoiar desde 2001, naufrague devido a confrontos entre comunidades étnicas.

Ashraf Ghani é pashtun e conta com o apoio dessa etnia majoritária no Sul, enquanto Abdullah Abdullah, apesar de ter um pai pashtun, é apoiado principalmente pelos tadjiques do Norte.

Wahington afirma que não fará nenhuma interferência no Afeganistão, mas já preveniu Kabul que a crise deve ser solucionada pacificamente. Em caso contrário, a ajuda financeira norte-americana será suspensa.

As tropas da Otan devem deixar o país no final deste ano, e Washington também quer que Kabul assine rapidamente um tratado bilateral de segurança prevendo a manutenção no país de 9.800 soldados norte-americanos, em vez dos atuais 32 mil.

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