Em meio a crise econômica, conflito ajuda Hamas a recuperar popularidade

Uma palestina na Escola das ONU atingida em Jabalya, Gaza.
Uma palestina na Escola das ONU atingida em Jabalya, Gaza. REUTERS/Mohammed Salem

Daniela Kresch, correspondente da RFI em Israel. O conflito entre Israel e o grupo islâmico Hamas, na Faixa de Gaza, entra em seu 23º dia com mais violência e menos horizonte diplomático. Apesar das perdas humanas, muitos analistas afirmam que, ao final deste conflito, o grande vencedor será o Hamas, que emergirá das cinzas para liderar a reconstrução da Faixa de Gaza.

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O Hamas estava passando por um de seus momentos mais impopulares nos últimos meses, encontrando dificuldades em pagar os salários de milhares de servidores públicos em Gaza e sendo criticado por não melhorar a vida dos moradores da região.

O grupo perdeu financiamento da Síria e do Irã, e estava sendo bancado apenas pelo Qatar, mas sem o volume de verbas anterior, que o ajudou a acumular um arsenal de 10 mil mísseis e construir dezenas de túneis subterrâneos a custos milionários.

Com esse conflito, o Hamas volta a ter popularidade como líder da resistência a Israel, mesmo apesar de tantas mortes em Gaza, e poderá sair em uma posição melhor do que antes.

Cessar-fogo distante

Os esforços continuam em diversas frentes para que haja um cessar-fogo e há a expectativa de conversas no Cairo, nesta quarta (30). Mas os candidatos a moderadores não se entendem e isso se reflete numa falta de iniciativa concreta.

Ontem, por exemplo, a Organização para Libertação da Palestina, anunciou, de Ramallah, na Cisjordânia, que todas as facções armadas de Gaza haviam aceitado um cessar-fogo imediato e unilateral. Mas, imediatamente, o Hamas negou qualquer negociação nesse sentido.

O próprio líder do braço armado do Hamas, as Brigadas Izz ad-Din al-Qassam, Muhammad Deif, emitiu uma rara mensagem de voz dizendo que não haverá nenhum cessar-fogo até que Israel retire todas as tropas de Gaza.

Entre os supostos aliados americanos e os israelenses, também há desentendimento. Ontem, o secretário de Estado americano, John Kerry, afirmou que o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu pediu uma trégua. Pouco depois, o escritório de Netanyahu negou e disse que foi Kerry que fez a sugestão.

Palestinos protestam na Cisjordânia

Os palestinos da Cisjordânia acompanham de perto tudo o que acontece em Gaza e muitos têm saído às ruas para se manifestar, bem como árabes-israelenses, isto é, a minoria árabe dentro de Israel, 20% da população.

Alguns protestos se tornam violentos, com os manifestantes atirando pedras, bombas caseiras ou usando armas de fogo contra os policiais militares, que reagem com todo tipo de artefato: bombas de efeito moral, gás lacrimogêneo e jatos d’água com uma espécie de líquido malcheiroso. Até agora, nas últimas duas semanas, seis manifestantes morreram e dezenas foram detidos.

Mas analistas acreditam que as marchas não têm sido tão constantes e grandiosas como, por exemplo, na época da segunda intifada palestina, entre 2000 e 2005, quando as forças de segurança de Israel enfrentavam diariamente protestos com dezenas de milhares de pessoas, sem contar ações terroristas com homens-bomba em locais públicos de Israel.

Muita gente, portanto, não tem saído às ruas para protestar por temor, talvez, de violência ou por não apoiar, na verdade, o regime do Hamas em Gaza.

Noite de violência

A noite foi novamente violenta na Faixa de Gaza, com o exército israelense alvejando mais de 70 locais enquanto, em Israel, continuavam os ataques palestinos com mísseis, foguetes e morteiros. Segundo os palestinos, 43 pessoas morreram durante a noite, elevando o número de mortos entre os palestinos a cerca de 1.200.

Os palestinos afirmam que houve um ataque a uma escola da ONU, com 16 mortos. Israel ainda não reagiu a esse relato. Isso se seguiu a um dia também difícil. Os reservatórios de combustível da única usina elétrica de Gaza pegaram fogo, reduzindo o já deficiente suprimento de luz para os moradores.

A usina em si, responsável por 30% da energia elétrica de Gaza, não foi danificada, mas funciona de maneira precária. Gaza continua recebendo eletricidade de Israel e do Egito, mas também com menos volume, o que causa blecautes no território e aumenta o temor de uma crise humanitária mais profunda.

Em Israel, dois terços do país continuam passando os dias próximos a abrigos antiaéreos por causa das dezenas de projéteis lançados contra o país. Desde o começo do conflito, o Hamas lançou mais de 2.600 mísseis, foguetes e morteiros contra Israel.

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