Dia do trabalhador

Divergências sobre gestão da economia marcam 1° de maio

Polícia dispersa manifestantes  nos arredores da Praça Taksim, em Istambul
Polícia dispersa manifestantes nos arredores da Praça Taksim, em Istambul Fuente: Reuters.

Se é possível traçar um quadro geral deste 1° de maio, é que as classes trabalhadoras do mundo inteiro temem a supressão de direitos conquistados em décadas de luta. Das reformas trabalhistas que prometem facilitar as demissões na Coreia do Sul à lei da terceirização no Brasil, a ordem do dia do trabalhador é a oposição entre a garantia do emprego e a garantia do lucro. Outro ponto comum a boa parte das marchas foram os choques entre manifestantes e polícia.

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Foi o caso da Turquia, por exemplo. Em Istambul, a polícia utilizou canhões d'água e bombas de gás lacrimogênio para dispersar as milhares de pessoas que se aproximavam da emblemática praça Taksim, berço dos movimentos de contestação de 2013. Alguns manifestantes responderam com pedras, garrafas e fogos de artifício, mas a maioria dispersou pelas ruas do bairro de Besiktas. Mais de 130 pessoas foram presas.

Desde 2013, o presidente liberal-conservador Recep Tayyp Erdogan proíbe sistematicamente agrupamentos na praça Taksim, com medo que o simbolismo do local desencadeie uma nova onda de protestos. Em um discurso em Ankara, ele afirmou que as reuniões na praça têm por objetivo "paralisar a cidade".

Mas o simbolismo de Taksim vai além da contestação, em 2013, à guinada autoritária de Erdogan - que chegou a bloquear seguidas vezes as redes sociais usadas por opositores. Os sindicatos exigem o direito de homenagear as vítimas do massacre de 1° de maio de 1977, quando desconhecidos abriram fogo contra 500 mil pessoas que celebravam o dia do trabalhador, matando 34.

Mas para o governo que, no mês passado, aprovou uma lei de segurança interna para aumentar o poder repressivo da polícia contra manifestantes, a praça é "inadequada" para manifestações. Cartazes que circulavam por Istambul diziam que Taksim não só é adequada, como é efetivamente o primeiro de maio.

Brasil

No Brasil, a repressão chegou mais cedo. No estado do Paraná, a violentíssima ação da polícia contra servidores públicos - a maioria, professores - que protestavam contra uma reforma previdenciária, causou o cancelamento das atividades de primeiro de maio. Elas aconteceriam justamente no Centro Cívico que foi palco da barbárie, cujo saldo foi de 180 feridos.

Com relação à terceirização, as duas maiores entidades sindicais do país saem às ruas com posições absolutamente antagônicas. A conservadora Força Sindical defende a ampliação das modalidades de terceirização por parte das empresas, enquanto a Central Única dos Trabalhadores (CUT) é contrária, por entender que a nova lei abre o caminho para retração de direitos.

Ásia

Este também é o temor dos 10 mil trabalhadores sul-coreanos, que entraram em confronto com a polícia de Seul. Pedindo uma greve geral para impedir as reformas trabalhistas do presidente Park Geun-Hye, eles marcharam em direção à sede do Executivo. A polícia ergueu barricadas, atacou os trabalhadores com bombas de gás lacrimogênio e canhões d'água, num conflito que durou três horas. Do alto de um carro de som, o líder da Federação dos Sindicatos dos Comerciários Coreanos, Kim Dong-Man, garantiu que a categoria vai "destruir qualquer tentativa de suprimir direitos trabalhistas".

Em outros pontos da Ásia, a história se repetiu: em Taiwan, manifestantes que exigiam melhores salários e redução das jornadas de trabalho atiraram bombas de fumaça na sede do governo, enquanto os trabalhadores domésticos de Hong Kong exigiram maiores direitos e regulação.

Na capital filipina, Manila, centenas de pessoas foram às ruas para pedir a abertura de postos locais de trabalho. As Filipinas seguem fortemente impactadas pelo drama da doméstica Mary Jane Veloso que, na última hora, escapou do fuzilamento na Indonésia. Para os manifestantes, a jovem, condenada por tráfico de drogas, foi vítima de uma grave crise no mercado de trabalho, que obriga os pobres a buscar trabalho no exterior - não raro, à mercê de aproveitadores, como os que colocaram a droga na bagagem de Veloso.

Grécia

Um dos países europeus mais devastados pela crise financeira, a Grécia celebrou seu primeiro Dia do Trabalhador depois da eleição do governo de esquerda do partido Syriza. O ministro das Finanças, Yanis Varufakis, participou das manifestações na praça Klafthmonos, no centro de Atenas. O primeiro ministro, Alexis Tsipras, não pôde participar porque está em Bruxelas para discutir o plano de ajuda europeia. Pelo Twitter, ele se disse confiante num acordo com o bloco, parabenizou o povo grego e afirmou que "as lutas pela defesa de direitos, da democracia e de uma vida digna vão triunfar".

A Grécia parece ser um dos poucos países em que governo e trabalhadores falam a mesma língua. Isso porque, entre as principais demandas dos trabalhadores gregos, estão o calote na dívida do país com a troika (Banco Central Europeu, Comissão Europeia e Fundo Monetário Internacional) e a ruptura com a política econômica da zona do euro. É exatamente a plataforma do Syriza.

 

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