Turquia/Eleições

Turquia confirma que explosões em comício do HDP foram atentado a bomba

Caos se instaura em comício do partido pró-curdo HDP após explosão da segunda bomba
Caos se instaura em comício do partido pró-curdo HDP após explosão da segunda bomba REUTERS/Sertac Kayar

A Turquia encara neste domingo (7) eleições que prometem ser as mais apertadas - e tensas - da última década. Neste sábado, autoridades judiciárias confirmaram que as explosões que mataram duas pessoas e feriram mais de cem durante um comício do partido pró-curdo HDP (Partido Democrático dos Povos, de esquerda) na sexta-feira (5), foram um atentado a bomba.

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Pedaços de um cilindro metálico e centenas de rolamentos de metal foram encontrados no local onde acontecia o comício, na cidade de Diyarbakir. De acordo com uma fonte dentro do departamento de Justiça, que requisitou anonimato, nenhum suspeito foi preso ainda, mas impressões digitais puderam ser recuperadas dos restos das bombas e a polícia teve acesso a câmeras de segurança que captaram as explosões.

Os dois estouros aconteceram em momentos diferentes. Foi o segundo que causou as mortes. De acordo com o ministro da Agricultura, Mehdi Eker, "uma das explosões foi certamente causada por dinamites e a outra, provavelmente, também". Ele acrescentou que telefones celulares foram usados como detonadores. No sábado pela manhã (6), uma das vítimas, Ramazan Yildiz, de apenas 17 anos, foi enterrado.

Atentados frequentes

Ao longo da campanha, o HDP sofreu vários ataques: um de seus motoristas de campanha foi morto a tiros, comitês foram vandalizados e ultranacionalistas fizeram um "arrastão" contra um comício. O partido gera a ira da direita, não só por defender os curdos, historicamente discriminados, mas por ter conseguido reunir uma jovem esquerda secular. Isso rendeu ao HDP comparações com o Podemos espanhol e o Syriza, da Grécia.

De acordo com o líder da sigla, Selahattin Demirtas, foram 124 atentados. "O objetivo é espalhar o caos e conquistar votos, é transformar o país no reino do caso", discursou Demirtas neste sábado em Istanbul. Ele estava programado para falar em Diyarbakir, uma das cidades em que a esquerda tem maior número de simpatizantes, mas sua intervenção foi cancelada por conta das bombas.

"AKP responderá por isso"

Militantes do acusam o AKP (Partido da Justiça e do Desenvolvimento, direita), do presidente Recep Tayyip Erdogan de estar por trás dos ataques. No sábado, milhares de pessoas participaram de um sit-in no local do atentado em Diyarbakir e cantaram que "o AKP responderá por isso".

A esquerda espera que esta resposta venha nas urnas. O AKP segue à frente das pesquisas, com cerca de 40% das intenções de voto, seguido pelos social-democratas do CHP (Partido Republicano do Povo) e pelo MHP (Partido do Movimento Nacionalista, de extrema-direita). O HDP aparece em quarto lugar e luta para ultrapassar a barreira de 10% necessária pela legislação turca para eleger deputados.

Se conseguir, a sigla pode destruir a maioria de Erdogan no Parlamento e obrigá-lo a formar uma coalizão. Isso complicaria os planos do presidente de se outorgar mais poderes. Até sua chegada ao cargo, no ano passado, a presidência era simbólica. O poder era exercido pelo primeiro-ministro que, entre 2003 e 2014, foi o próprio Erdogan.

Autoritário

Mas, Erdogan, que não tem no apreço pelas regras democráticas sua maior qualidade, parece ter subvertido também essa regra. Assim como outra, que proíbe o engajamento do presidente em exercício na campanha. Pois até comício, ele fez. E tem promovido ataques constantes contra Demirtas, a quem classifica como "o rostinho bonito" à frente do PKK, o movimento independentista curdo, contra o qual a Turquia luta há décadas.

Esse engajamento, bem como as recorrentes medidas para cercear a comunicação e as redes sociais, suscitaram críticas da imprensa internacional, que o classifica frequentemente como autoritário e autocrático. Neste sábado, Erdogan respondeu às críticas, dizendo que o diário inglês The Guardian não "conhece seus limites". Ele também desqualificou o New York Times, que trabalharia pelo interesse econômico de judeus.

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