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Crise na Alemanha será algo “muito mau para o futuro da Europa”

Áudio 08:40
Angela Merkel à saída da reunião com o Presidente da República, depois de lhe ter anunciado o fracasso das negociações. 20 de Novembro 2017.
Angela Merkel à saída da reunião com o Presidente da República, depois de lhe ter anunciado o fracasso das negociações. 20 de Novembro 2017. Odd ANDERSEN / AFP

Angela Merkel não conseguiu convencer os liberais do FDP e Os Verdes a formarem uma coligação com a CDU/CSU. Uma crise governativa na Alemanha será algo "muito mau para o futuro da Europa”, alertou José Palmeira, professor de Ciência Política na Universidade do Minho.

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A Alemanha espera um novo governo desde as eleições legislativas de 24 de Setembro, quando o partido de extrema-direita AfD entrou para o Bundestag. A CDU de Angela Merkel, a CSU, o FDP e Os Verdes negociavam para alcançar um acordo prévio que lhes permitisse iniciar negociações formais de coligação, mas Merkel não conseguiu ultrapassar as divergências entre as diferentes formações.

Esta segunda-feira, o presidente alemão Frank-Walter Steinmeier afastou a hipótese de novas eleições e afirmou que os partidos têm a responsabilidade de tentar formar governo. Numa altura em que as posições dos partidos envolvidos nas pré-negociações “se extremaram um pouco”, José Palmeira, professor de Ciência Política na Universidade do Minho, em Portugal, tem dúvidas sobre a eficácia dessa negociação.

É a primeira vez, desde a fundação da República Federal da Alemanha, em 1949, que a Alemanha não consegue maioria para ser governada. Ou seja, “é uma instabilidade que é relativamente inédita”, explicou o analista.

José Palmeira advertiu que “uma crise governativa interna na Alemanha terá também repercussões na União Europeia” porque, em primeiro lugar, como se trata da “maior potência económica dentro da União Europeia”, poderá haver “reflexos na situação económica, designadamente na moeda única, no Euro”.

Depois, pode haver consequências “em termos de liderança” da UE, em que a Alemanha e a França têm sido protagonistas, nomeadamente, com a “recente cooperação estruturada permanente no domínio da segurança e defesa”.

A Europa já tem muitos problemas e se a estes problemas se acrescentar uma crise governativa na Alemanha – que está, digamos assim, no coração da União Europeia – isto será, de facto, muito mau para o futuro da Europa que está a procurar refazer-se dos problemas que teve com a crise dos refugiados, com o Brexit e também com o crescimento dos partidos extremistas nalguns países da União Europeia”, acrescentou o politólogo.

José Palmeira recordou que “Angela Merkel reforçou a sua posição no interior da União Europeia mas enfraqueceu-a no interior da Alemanha”, considerando que a sua "posição forte na Europa" é "um trunfo que ela poderá jogar internamente". Por isso, o analista defende que a posição de Merkel não está em risco mas "poderá é conduzir a um novo processo eleitoral e os processos eleitorais são sempre uma incógnita".

O professor de Ciência Política sublinhou, ainda, que “não há a garantia” que o resultado de novas eleições não seja o mesmo que a 24 de Setembro mas, como “o eleitorado tende a preferir a estabilidade”, se considerar que “os liberais foram demasiado radicais pode haver transferência de votos para a CDU/CSU”.

Um novo escrutínio também poderá “a priori” beneficiar o partido da extrema-direita AfD porque “a instabilidade leva muitas vezes ao voto de protesto”.

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