Convidado

Lula da Silva agradeceu em Paris “a solidariedade internacional”

Áudio 09:06
Anne Hidalgo, Presidente da Câmara de Paris, e Lula da Silva, antigo Presidente do Brasil. Paris, 2 de Março de 2020.
Anne Hidalgo, Presidente da Câmara de Paris, e Lula da Silva, antigo Presidente do Brasil. Paris, 2 de Março de 2020. AFP - ALAIN JOCARD

O antigo presidente do Brasil, Lula da Silva, agradeceu, esta segunda-feira, em Paris, “a solidariedade internacional” e o apoio que teve durante os 580 dias em que esteve preso. No salão nobre da Câmara Municipal, Lula da Silva foi homenageado com o título de cidadão honorário de Paris e declarou estar “mais motivado que nunca para reconquistar a democracia” no Brasil.

Publicidade

O antigo presidente do Brasil, Lula da Silva, foi recebido como um “guerreiro” em Paris, esta segunda-feira. Lula da Silva foi buscar o título de cidadão honorário da capital francesa que lhe tinha sido atribuído quando ainda estava na prisão.

A presidente da Câmara de Paris, Anne Hidalgo, lembrou que, em Outubro, a antiga presidente brasileira Dilma Rousseff foi-lhe pedir apoio para a campanha de libertação de Lula da Silva e que não podia deixar de ajudar. Anne Hidalgo falou na “luta dos dois presidentes contra a pobreza” e disse que “desde a eleição de Jair Bolsonaro o Brasil virou as costas à democracia”. Por isso, dar o título de cidadão honorário a Lula da Silva é “uma honra” não só para ela como para Paris.

 

Este título de cidadão honorário é também uma honra para Paris atribuí-lo a uma grande personalidade como Lula (…) Deixa-me falar do meu orgulho, da minha confiança, da minha vontade de ver contigo, com a Dilma, com o Fernando e todos os brasileiros, o Brasil a reatar com a sua bela história, aquela que defendeste, uma história aberta, uma história de um povo que não tem medo e que se inscreve plenamente em todos os grandes combates da humanidade, um povo que deve reencontrar a sua honra - como tu - e a sua dignidade. Muito, muito obrigada Lula”, discursou Anne Hidalgo.

Acompanhado pela também ex-Presidente do Brasil Dilma Rousseff e pelo ex-candidato à presidência brasileira, em 2018, pelo Partido dos Trabalhadores (PT), Fernando Haddad, Lula da Silva agradeceu várias vezes a Paris e à autarca Anne Hidalgo e garantiu estar “mais motivado do que nunca a reconquistar a democracia” no Brasil.

 

Estou muito motivado e podem acreditar numa coisa: quando eu digo que tenho 74 anos de idade, que eu tenho energia de 30 e que tenho tesão de 20 podem acreditar que é verdade. Eu estou mais motivado do que nunca a reconquistar a democracia no nosso país, reconquistar o direito do nosso povo ser feliz”, declarou.

O antigo presidente, que passou 580 dias na prisão, contou que “quando soube da distinção” até os guardas prisionais “ficaram felizes” e disse que deve a sua liberdade a todos os que lutaram por ela enquanto estava atrás das grades.

 

Hermano Sanches Ruivo, conselheiro-executivo da Câmara de Paris, disse à RFI que Paris também contribuiu para a libertação de Lula da Silva. Por isso, faz todo o sentido a entrega do título em mãos, mesmo em plena campanha eleitoral para as autárquicas e quando estão a ser cancelados eventos com multidões devido à ameaça do novo tipo de coronavírus.

 

O que o presidente Lula disse é que quando a cidade de Paris dá a cidadania de honra a uma personalidade, isso é notícia, isso é espaço de liberdade, isso é espaço para também poder recuperar uma parte dessa liberdade”, afirmou Hermano Sanches Ruivo.

 

Do Brasil à diáspora, o slogan “Lula Livre” deu origem a comitês de resistência que organizaram eventos para fazer pressão internacional pela libertação do antigo Presidente, o qual estava a cumprir uma condenação de oito anos e dez meses de prisão por alegada corrupção e branqueamento de capitais.

 

“Agora está livre mas não inocentado”, pelo que “a luta continua”, sublinha Márcia Camargos, uma das fundadoras do Comité Lula Livre de Paris que ajudou na publicação, em França, do livro “Lula – La verité vaincra”.

Embora ele esteja livre, ele não está inocentado e a democracia no Brasil continua a correr um sério risco. Continuamos a nossa luta sem parar e com o apoio na França dos sindicatos e de artistas de esquerda que estão connosco nessa batalha. A luta continua pela democracia no Brasil”, afirmou Márcia Camargos.

 

Outros movimentos se organizaram, como o MD18 e Red.br, nos quais milita Filipe Galvon, realizador do documentário “Encantado. O Brasil em Desencanto”, que vai estrear no Brasil este ano. Para ele, ver Lula da Silva a receber o título de cidadão honorário de Paris é “uma vitória histórica e simbólica”.

 

É uma vitória simbólica de afirmação de um povo, das classes populares que, pela primeira vez, se viram representadas por um presidente e esse presidente, também simbolicamente, acabou sendo aquele que melhor representou o Brasil internacionalmente (...) Então hoje é como se fosse o fechamento de um ciclo que começa em 2002, com a eleição de Lula, e hoje - depois de tudo o que aconteceu com a prisão injusta do presidente Lula, com o declínio e a catástrofe brasileira que culminam com a eleição de Bolsonaro - que Paris dê esse título de cidadão honorário é uma vitória muito maior do que a vitória de um homem, a vitória de um ex-presidente. É a vitória da afirmação de um povo historicamente oprimido”, defendeu Filipe Galvon.

 

Lula da Silva foi libertado a 8 de Novembro de 2019, na sequência de uma decisão do Supremo Tribunal, depois de ter cumprido um ano e meio de prisão. Tinha sido condenado em dois processos por corrupção e tem ainda investigações abertas contra si.

 

Esta terça-feira, Lula da Silva vai estar, também, em Paris no “Festival Lula Livre”, no Théâtre du Soleil, com vários artistas a subir ao palco como Marina Foïs, Agnès Jaouï e Helena Noguerra. Lula da Silva vai depois a Genebra e Berlim para discutir a questão da desigualdade social com líderes políticos, sindicais e religiosos.

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Acompanhe toda a actualidade internacional fazendo download da aplicação RFI