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A viagem rumo ao oeste de Babetida Sadjo

Áudio 12:33
Babetida Sadjo é Laura em Into the Nigth.
Babetida Sadjo é Laura em Into the Nigth. © Into the night

Babetida Sadjo é Laura na primeira série belga da Netflix. Into the Nigth é uma corrida contra o relógio num mundo apocalíptico. 12 passageiros dentro de um avião, com partida de Bruxelas em direcção a Moscovo, que acabam reféns de um homem que garante que o sol mata.

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Este é o ponto de partida para uma missão de sobrevivência sempre noite dentro.

Seis episódios de uma intriga cativante, onde as mulheres de Into the nigth acabam por assumir os momentos decisivos. Entre elas está Babetida Sadjo. Actriz guineense, nascida em Bafatá no leste do país, que em 2018 assumiu um dos principais papéis do filme “And Breathe Normally”, com o seu rosto estampado no cartaz do filme islandês que venceu o prémio Sundance de melhor filme estrangeiro na Islândia.

Babetida Sadjo é Laura, uma auxiliar de enfermagem em Into the Night.  Em entrevista à RFI a actriz explica como trabalhou e preparou o seu personagem e fala também da “sua” Guiné-Bissau.

 

RFI: Como é que reagiu quando descobriu o guião de Into The Night?

Babetida Sadjo: Ao descobrir o guião de Into the Night fiquei verdadeiramente feliz. Faz parte de um universo artístico no qual ainda não tinha participado. É uma história que nunca tinha contado: o fim do mundo e a sobrevivência (já tinha falado de sobrevivência no And Breathe Normally [de Isold Uggadottir] mas de forma completamente diferente).

Aqui é verdadeiramente intenso. Tem momentos engraçados, de emoção, imensos momentos de stress porque as pessoas precisam de sobreviver.

Fiquei muito, muito muito feliz por fazer parte deste projecto. É novo, há pessoas que falam outras línguas, muitos códigos foram postos de lado. Fiquei verdadeiramente fascinada com isso.

RFI: Into the night pode de alguma forma colar-se à realidade? O mundo também enfrenta um perigo invisível. Em Into The Night o perigo é o sol e no mundo actual é a Covid-19. Há semelhanças?

BS: Trata-se de uma realidade parecida, mas ao mesmo tempo diferente. Onde verdadeiramente existe semelhança é no facto de existir qualquer coisa no ar que nos pode matar. No mundo actual é a Covid-19 e em Into The Night é o sol. O sol que normalmente é fonte de vida, aqui transforma-se num perigo de morte. Gosto bastante desta oposição, deste simbolismo.

Podemos encontrar semelhanças, porque no momento actual todos estamos de alguma forma fechados em algum sítio. Em Into the Night estamos bloqueados dentro de um avião, à porta fechada, com pessoas estranhas. Pessoas que não conhecemos e com as quais, de repente, temos de ficar ligadas, de criar um grupo, tipo uma tribo para podermos sobreviver a este este perigo que nos ameaça. Sem sabermos verdadeiramente até que ponto nos pode ameaçar.

Até porque é alguém que chega e que diz que o sol está a matar pessoas e que temos que partir rumo ao oeste. Ao partirmos não temos nenhuma certeza desta afirmação.

Em relação ao novo coronavírus é a mesma coisa, estamos fechados em casa. Claro, estamos com a nossa família e não com estranhos, mas há qualquer coisa de estranho no meio disto tudo.

Nunca na vida, essencialmente na Europa, estivemos enclausurados tanto tempo com as mesmas pessoas, no mesmo local, sem podermos sair. A nível da sociedade isto é, só por si, um fenómeno enorme.

Na minha vida, nunca pensei ficar em confinamento com as minhas duas filhas e o meu homem assim de forma tão intensa e desafiante. A certeza transforma-se em dúvida e o conhecido em desconhecido.

RFI: Em Into the Night é Laura, uma auxiliar de enfermagem. Aliás é a primeira coisa que diz: “eu não sou médica, sou auxiliar de enfermagem a domicílio”. Quem é a Laura?

BS: Laura é uma auxiliar de enfermagem, com cerca de 30 anos, que se encontra neste avião para ir até a Moscovo, para acompanhar um dos seus pacientes que é russo.

É uma auxiliar de enfermagem, uma pessoa humilde, muito simples. Na primeira apresentação que faz de si própria na série, sente-se que ela não tem uma grande valorização de si mesma perante aquilo que acaba de acontecer.

Dizem que precisam de um médico e ela responde “eu não sou médica, sou auxiliar de enfermagem a domicílio”. O que a nível da sua personalidade já diz bastante.

É uma pessoa que está disposta a sacrificar-se pelos outros, mas não a vamos descobrir verdadeiramente. Não vamos conhecer os seus antecedentes, a sua história conta-se nas entrelinhas ao longo da série.

Penso que é uma mulher extremamente bela e considerando tudo o que se passa em relação à Covid-19 fiquei surpreendida. Foi um presente inestimável. Enquanto actores representamos o mundo, tentamos apresentá-lo da forma mais real e fantasiosa possível, ao mesmo tempo. O cinema não é a realidade, mas tocam-se.

Laura acaba por ser uma das pessoas mais importantes ao longo da série e, em paralelo com momento actual que o mundo atravessa, os profissionais de saúde são as pessoas mais importantes na gestão da situação.

Aquilo de que mais gosto na Laura é que ela faz parte do universo das pessoas comuns, todos se podem identificar com ela. E, de repente, a Laura, essa pessoa comum, transforma-se numa peça verdadeiramente fulcral numa situação de sobrevivência.

RFI: Como é que se preparou para construir o personagem?

BS: Quando me propuseram o papel de Laura comecei por valorizar a sua profissão, porque ao longo da série é a sua profissão que vai fazer a diferença. Acabamos por descobrir a Laura através da sua profissão.

Para me preparar, procurei à minha volta pessoas que exercessem efectivamente a profissão. Queria saber quais os gestos que uma auxiliar de enfermagem pode realizar e qual é a diferença entre uma auxiliar de enfermagem e uma enfermeira ou um médico.

Ter descoberto isto, fez-me, enquanto personagem, ter a consciência de que aquilo que ela está a fazer, normalmente não tem direito de o fazer, o que acrescenta tensão e stress ao papel.

A nível alimentar alterei a minha nutrição, não para ser mais gorda ou mais magra, mas para conseguir ter maior resistência física. Para ter uma respiração mais forte.

Estamos numa situação de stress, o corpo não faz a distinção entre ficção e realidade, mas para mim era importante projectar esta intensidade e stress na personagem sem me magoar.

RFI: Haverá uma segunda temporada?

BS: Não faço ideia, não me posso pronunciar sobre isso. É a Netflix que tem a chave dessa resposta. Quanto a mim, fiquei verdadeiramente feliz e contente por ter participado nesta primeira etapa e é preciso também aproveitar o impacto que isto tem.

Posso dizer que na Guiné-Bissau as pessoas estão super contentes de me verem neste projecto. De verem como é que uma negra aparece nesta história, que não aparece colada a um estereótipo. É alguém que pode representar qualquer pessoa. E fico muito agradecida que boa parte de África esteja orgulhosa disso.

RFI: Falando de África. Que recordações tem de Bafatá, da sua infância em Bafatá?

BS: Terra vermelha, terra quente, a chuva, as pessoas, a comida, o gumbé...

São lembranças que estão verdadeiramente enraizadas. Deixei a Guiné-Bissau quando tinha 12 anos, depois fui para o Vietname.

Lembro-me de um bem-estar enorme e ao mesmo tempo de angústia. Fui criada pela minha mãe, o meu pai não estava presente, eles separaram-se. A minha mãe fez o que era possível para responder às nossas necessidades, mas também me lembro de momentos de fome, de insuficiência alimentar. Lembro-me disso tudo e é doloroso, porém acaba por ser bastante enriquecedor para a pessoa na qual me transformei, em relação à motivação que isso me dá. Tudo pode acontecer que não há problema, estou aqui para os enfrentar.

RFI: Como é que olha para o seu país de origem?

BS: Há uma dupla leitura. É evidente que há uma instabilidade política. O Estado não respeita a sua população.

O olhar que tenho da Guiné-Bissau é o olhar de uma criança, quando deixei o país era uma criança. Vivi na Guiné enquanto criança, não enquanto adulto. Como adulto a minha visão do país é intelectual. Vejo crianças que sofrem por não poderem ir à escola, por falta de serviços de saúde, pela falta de coisas básicas e isso toca-me imenso.

Em 2017, quando voltei à Guiné-Bissau estranhamente não senti essa instabilidade. Ou seja, senti ao nível de infraestruturas, do Estado. Mas a nível da sociedade, vi pessoas que lutam pelo seu dia-a-dia, que conservam a sua boa disposição e o sorriso.

Para mim a Guiné-Bissau apresenta uma instabilidade a duas velocidades: uma é a população que tenta gerir a sua vida e outra é o Estado que, para mim, deveria levar a cabo um trabalho de respeito para com sua população, respeito pela vida, pela cultura, pela crianças.

RFI: Quais os seus próximos projectos?

BS: Tenho imensos projectos mas tudo foi adiado devido à situação actual.

Um deles é ir à Guiné-Bissau propor projectos ao Governo. Enquanto cidadã penso que temos deveres. Não posso criticar o Governo sem conhecer a realidade e não fazer nada pelo meu próprio país.

Quero propor ao ministro da Cultura um Festival de Cinema com ateliers, com convidados de toda a diáspora e continente africano, para que eles partilhem a sua paixão, o seu trabalho e, ao mesmo tempo, criar novas dinâmicas no país. Há imensa coisa a fazer!

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