Acesso ao principal conteúdo
#Brasil/Covid-19

Jair Bolsonaro está “a atrapalhar o combate” à covid-19

Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil durante uma manifestação de apoio em Brasília. 31 de Maio de 2020.
Jair Bolsonaro, Presidente do Brasil durante uma manifestação de apoio em Brasília. 31 de Maio de 2020. AFP - EVARISTO SA
Texto por: Carina Branco
22 min

Um juiz de um tribunal do distrito federal de Brasília determinou que o Presidente Jair Bolsonaro deve ser obrigado a usar máscaras no espaço público da capital. Numa altura em que o número de mortes por covid-19 no Brasil ultrapassou as 52.600 e há mais de um milhão de infectados, o comportamento do Presidente continua a "atrapalhar o combate" à covid-19, considera o politólogo brasileiro Emerson Servi.

Publicidade

Emmerson Servi, Professor de Ciência Política na Universidade Federal do Paraná

O Presidente brasileiro, Jair Bolsonaro, teve uma atitude “negacionista” relativamente ao novo coronavírus desde o início, que chamou de “gripezinha”, e o seu comportamento está a “atrapalhar o combate” à covid-19, considera Emerson Servi, professor do departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná, no Brasil.

Esta segunda-feira, um juiz de um tribunal do distrito federal de Brasília determinou que Jair Bolsonaro deve ser obrigado a usar máscaras no espaço público da capital, senão terá de pagar uma multa diária de dois mil reais, cerca de 340 euros. A decisão surge numa altura em que o número de mortes por covid-19 no Brasil ultrapassou as 52.600 e há mais de um milhão de infectados.

“Desde o início da pandemia no Brasil, houve uma decisão judicial de que os governadores de Estados tinham autonomia para tomar decisões sobre as melhores formas de combater a epidemia de covid-19 em sus regiões. O governador do distrito federal - que é onde está o governo central do Brasil - determinou que todos deveriam usar máscaras enquanto estivessem em locais públicos e isso inclui todos. Mas, o presidente da República, que está no distrito federal, descumpria essa regra permanentemente. Era possível ver, em reuniões públicas, que ele era o único sem máscara e houve uma série de solicitaçoes antes da determinaçao judicial para que ele passasse a usar máscara e ele não passou. Então, é uma consequência do descumprimento de uma regra do distrito federal estabelecida pelo governador do distrito federal”, explica o politólogo Emmerson Servi.

Não é de excluir que Jair Bolsonaro lute legalmente contra a ordem de colocar máscara: “Nos primeiros dias, ele passou a cumprir, passou a usar as máscaras, mas já houve notícias que a Advocacia Geral da União, que é uma espécie de assessoria jurídica da Presidência – que não deveria ser da Presidência, deveria ser do Estado – que vai recorrer dessa decisão judicial e, pelo menos, legalmente o Presidente vai tentar reverter a obrigatoriedade de usar máscara durante a pandemia. Chega a ser engraçado, mas é o noticiário que a gente tem”, comentou Emmerson Servi.

Desde o final de Abril que é obrigatória a utilização de máscara de protecção nos espaços públicos no Distrito Federal de Brasília para conter a propagação do novo coronavírus. No entanto, Bolsonaro apareceu em público várias vezes sem protecção, por vezes, em contacto directo com outras pessoas.

“No fundo, no fundo, tudo isso é um processo de negacionismo por parte dele [do Presidente] da pandemia. No início, ele disse que não passava de uma gripezinha. Agora, essa necessidade de uma decisão judicial para que ele use máscara apenas demonstra que é a aplicação na prática daquela fala inicial em que ele não acreditava, mesmo com os números oficiais no Brasil indicando que já passámos de 50.000 mortes e mais de um milhão de infectados pelo vírus”, continua Emmerson Servi.

Para o professor do departamento de Ciência Política da Universidade Federal do Paraná, o Presidente brasileiro está a “atrapalhar o combate” à covid-19: “Nós imaginávamos que existissem apenas duas possibilidades de actuação de um homem público em situações como esta da pandemia. A esperada era que ele actuasse de todas as formas possíveis para tentar combater o problema e reduzir ao máximo as mortes ou, em casos extremos, ele simplesmente não participaria das actividades de tentativa de combate para tentar se afastar desse tema. No caso do Presidente do Brasil, nós temos uma terceira posição que é: nem ajudar a combater, nem se afastar do tema, mas atrapalhar. Então, quando ele actua ao contrário das determinações das autoridades de saúde, o que ele está fazendo é atrapalhar o combate à doença.

Emmerson Servi sublinha mesmo que há “relatos de casos e mais casos de pessoas que morreram pela covid-19 e que antes negavam a doença” e que “não queriam usar máscara”. “Em boa medida, reproduzindo o discurso de uma autoridade pública.”

O politólogo acrescenta que “a avaliação negativa do Presidente está a aproximar-se de 50%, enquanto a avaliação positiva dos governadores tem crescido”, ao contrário do que é habitual no Brasil. A contribuir para essa queda de popularidade está, também, a detenção, nos últimos dias, de um ex-assessor de um dos filhos de Bolsonaro, considerado peça fundamental numa investigação sobre transacções ilícitas e actos de corrupção que teriam acontecido quando o filho do Presidente era deputado estadual na câmara legislativa do Rio de Janeiro.

 

NewsletterReceba a newsletter diária RFI: noticiários, reportagens, entrevistas, análises, perfis, emissões, programas.

Acompanhe toda a actualidade internacional fazendo download da aplicação RFI

Página não encontrada

O conteúdo ao qual pretende aceder não existe ou já não está disponível.