Convidado

Vladimir Putin pode ficar no poder até 2036 na Rússia

Áudio 08:15
Le président russe Vladimir Poutine, lors de son discours annuel sur l'état de la nation, le mercredi 15 janvier 2020, devant les parlementaires, a annoncé une réforme de la Constitution et un référendum.
Le président russe Vladimir Poutine, lors de son discours annuel sur l'état de la nation, le mercredi 15 janvier 2020, devant les parlementaires, a annoncé une réforme de la Constitution et un référendum. Alexey Nikolsky/Kremlin via REUTERS

A reforma da Constituição foi aprovada na quarta-feira 1 de Julho na Rússia com mais de 77% dos votos a favor, e com uma participação superior a 65%.

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Uma das principais reformas era a possibilidade do actual Presidente, Vladimir Putin poder candidatar-se a dois novos mandatos, o que significa que poderá ficar no poder até 2036 se vencer os dois próximos escrutínios.

O actual mandato vai até 2024, terminando assim um ciclo de quatro mandatos, iniciado em 2000 e apenas interrompido entre 2008 e 2012 quando passou a ser Primeiro-ministro.

Paulo Fanha, jogador de xadrez a residir em Moscovo, observador atento da realidade russa, analisou o novo quadro político na Rússia.

Se o povo decidiu, está decidido. De qualquer forma, quando foram as últimas eleições, Vladimir Putin já tinha ganho com uma margem muito confortável. É porque realmente queriam que ele continuasse à frente dos destinos do país”, afirmou, acrescentando que a reforma não se limitava a esse tema:A reforma não se limitava a isso, de facto exista agora a possibilidade de Vladimir Putin se poder candidatar por mais duas vezes, mas também altera por exemplo o estado de laicidade do país. Se o país era oficialmente laico, a partir de agora poderá ser oficialmente ortodoxo. Isto é um país com muitas nações dentro, com muitas religiões, portanto não sei em que medida isso poderá perturbar alguns equilíbrios que existem”.

Vladimir Putin tem prós e contras como refere Paulo Fanha:Há quem goste muito, e há quem deteste. Tradicionalmente nas grandes cidades existe mais contestação do que fora das grandes cidades”, sublinhou, acrescentando que faria do actual Presidente russo a maior figura política da história da Rússia: “Faria com a diferença que não precisou de matar tanta gente quanto o Estaline. Quando olhamos para o trabalho que ele fez, ele pegou numa Rússia que tinha deixado de ser a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. A moral estava em baixo, com índices de criminalidade muitos altos, com uma economia completamente destruída, tinha umas forças armadas que estavam obsoletas, e pega num país nessas condições. Pronto, ele pode ter beneficiado da evolução dos preços do petróleo, mas a verdade é que a Rússia teve um franco crescimento nos primeiros anos em que ele esteve no Governo. Nos últimos anos, não sei se por erros próprios ou das sancções às quais a Rússia tem estado sujeita, a economia tem sofrido”.

Paulo Fanha lembra que quando Vladimir Putin chegou ao poder, a Rússia estava de rastos:Ele devolveu a autoestima ao país. Devolveu o orgulho na sua história com tudo de bom ou de mau tem. Ele devolveu esse orgulho de ser russo aos russos. A ideia que eu tenho é que durante muito tempo eles pensaram exclusivamente em si próprios, tiveram uma política muito isolacionista, e com isso perderam o seu lugar no mundo. Neste momento já vai havendo alguns contra poderes, existe a Federação Russa, existe a China, e a Índia deve aparecer. Penso que um dos aspectos positivos da acção de Vladimir Putin é a sua política externa. A maior parte das críticas que lhe são apontadas, têm a ver com a política interna, a política económica, mas em termos de política externa, acho que não há grandes divergências”, assegurou.

Por fim o jogador de xadrez, desporto muito popular na Rússia, não concorda quando se fala em ditadura:Se formos por essa definição de ditadura, a Sra. Angela Merkel está no poder há quantos anos? Acho que a diferença com Putin não é muito grande. Ela esteve como Chanceler 16 anos de forma ininterrupta, isto enquanto Putin foi Presidente, depois Primeiro-ministro e novamente Presidente. Sempre houve uma mudança de papeis. Esta história de se poder repetir mandatos ou não, não vejo que seja uma condição sem a qual não se possa viver num sistema democrático. Não é tão preocupante como a possibilidade de demitir juízes, acho que isso muito mais perigoso. Nada garante que ele seja eleito, enquanto a história dos juízes, isso sim é preocupante”, concluiu.

CONVIDADO 02-07-2020 MM

 

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