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Covid-19/Fome

Covid-19/OXFAM: "Vírus da fome, num mundo já faminto"

Sudão do Sul: Mulheres e crianças em fila para distribuição de alimentos pelo PAM 26/02/2017.
Sudão do Sul: Mulheres e crianças em fila para distribuição de alimentos pelo PAM 26/02/2017. REUTERS/Siegfried Modola
4 min

A OXFAM Internacional, que reúne 19 ONGs e tem mais de 3.000 parceiros, que actuam em mais de 90 países contra a pobreza, injustiça e desigualdades, publicou a 9 de julho o relatório intitulado "Vírus da fome, como o coronavírus aumenta a fome num mundo já faminto", no qual alerta para o facto de até ao final deste ano, 12.000 pessoas podem morrer de fome por dia no mundo, potencialmente mais do que as vítimas da pandemia de Covid-19.

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A estimativa do do Programa Alimentar Mundial - PAM - é de que o total de pessoas em situação de fome aumentará de 81% ou seja mais 121 milhões e segundo a Oxfam tal poderá provocar a morte de entre 6.100 a 12.200 pessoas por dia até ao final de 2020, mais mortes do que as provocadas pela pandemia de Covid-19.

Segundo a agência francesa de informação - AFP - mais de 550.000 pessoas morreram desde dezembro de 2019 devido ao novo coronavírus, que contagiou mais de 12 milhões de pessoas em 196 países e territórios, sendo os Estados Unidos o país mais afectado com 132.309 óbitos, seguido pelo Brasil com 67.964 e pelo Reino Unido com 44.517 mortos pela pandemia de Covid-19.

Para a Oxfam a pandemia de Covid-19 é a "gota de água que fará transbordar o copo" para milhões de pessoas que já lutam dia a dia contra os impactos causados por conflitos armados, mudanças climáticas, pobreza, desigualdades e um sistema viciado de produção de alimentos, que empobrec milhões de agricultores, mas permitiu que oito gigantes agro-alimentares pagássem mais de 18 mil milhões de dólares aos seus accionistas desde janeiro, quando a pandemia se espalhava pelo mundo e esse valor é mais de 10 vezes superior ao orçamento que as Nações Unidas julgam necessário, para acabar com a fome no planeta.

Devido às repercussões sociais e económicas da pandemia, em 2020 poderão morrer mais pessoas de fome, do que as que estão a morrer devido ao novo coronavírus, alerta o relatório da Oxfam, segundo o qual a taxa de mortalidade diária global, pela Covid-19, atingiu o nível mais alto em abril com mais de 10.000 óbitos e desde então, varia entre 5.000 e 7.0000 mortos por dia.

É importante observar que pode haver sobreposição entre estes números, dado que algumas mortes causadas pela Covid-19 podem estar ligadas à desnutrição.

Embora não se possa ter certeza sobre projecções para o futuro, se essas tendências não forem significativamente revertidas e se o aumento estimado pelo PAM sobre as mortes de pessoas em situação de fome se confirmar, é provável que o número de mortes diárias provocadas pelos impactos socio-económicos da pandemia, superará o dos óbitos provocados pela própria doença antes do final de 2020, aponta a Oxfam.

O relatório apresenta os países com níveis de fome extrema em finais de 2019: entre eles a Venezuela, o Iémen e 11 países africanos: RDC, Etiópia, Sudão, Sudão do Sul, Burkina Faso, Mali, Mauritânia, Níger, Chade, Senegal e Nigéria, mas também focos emergentes onde milhões de pessoas já fragilisadas foram atingidas pela fome devido à pandemia, casos da África do Sul, India, Iémen e o Brasil, país que deixou o Mapa da Fome no Mundo em 2014, mas pode vir a reintegrá-lo.

Em 2019 a estimativa era de que 821 milhões de pessoas sofriam de insegurança alimentar grave, dos quais 46,3 milhões nestes 11 países africanos, mas segundo a Oxfam só na região do Sahel o novo coronavírus pode colocar mais de 50 milhões de pessoas em situações de insegurança nutricional e alimentar, com riscos de fome extrema.

Agora, o coronavírus intensificou os impactos de conflitos, da desigualdade e da crise climática, abalando as estruturas de um sistema alimentar global já falido e deixando um contingente adicional de milhões de pessoas à beira da fome, pode ainda ler-se no relatório da Oxfam.

Mulheres sofrem mais

Á escala global, o problema atinge mais as mulheres, que em geral desempenham um papel crucial como trabalhadoras rurais e produtoras de alimentos, elas já são mais vulneráveis devido ao que a Oxfam chama de “discriminação sistémica”, pois ganham menos do que os homens pelo mesmo trabalho, têm menos posse de terra e são a maioria no grupo de trabalhadores informais, que sofrem as maiores consequências económicas da pandemia.

A Oxfam afirma que cabe aos Estados conter a propagação do novo coronavírus e adoptar iniciativas para evitar que a pandemia mate ainda mais pessoas de fome.

Entre as propostas, a Oxfam sugere o cancelamento das dívidas dos países em desenvolvimento, para libertar fundos para financiar os programas de saúde, e de protecção social, respondendo ao apelo das Nações Unidas face à crise da Covid-19, de financiamento da ajuda humanitária e na construção de sistemas alimentares mais justos, mais resilientes e mais sustentáveis.

Desde o inico da pandemia a Oxfam forneceu ajuda alimentar e água potável a 4,5 milhões de pessoas no mundo, com o apoio de 344 parceiros de 62 países e espera obter 113 milhões de dólares de financiamento suplementar para atingir 14 milhões de pessoas.

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