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Iémen:Catástrofe Ambiental

Iémen: à pior crise humanitária no mundo pode juntar-se a pior catástrofe ecológica mundial

A população negra do Iémen é das mais pobres no mundo árabe e é a mais marginalizada face à guerra civil, que desembocou na pior catóstrofe humanitária do mundo, segundo a ONU
A população negra do Iémen é das mais pobres no mundo árabe e é a mais marginalizada face à guerra civil, que desembocou na pior catóstrofe humanitária do mundo, segundo a ONU AFP
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O petroleiro Safer, com 1,14 milhões de barris de petróleo a bordo, está abandonado desde o início da guerra civil no Iémen em 2015, ao largo do porto iemenita de Hodeida e ameaça provocar uma das piores catástrofes ecológicas de sempre, alertaram esta quarta-feira as Nações Unidas.

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O petroleiro Safer, construído há mais de 45 anos, tem a bordo 1'14 milhões de barris de petróleo, avaliados em 40 milhões de dólares e está bloqueado desde o início da guerra civil no Iémen em 2015, despoletada pela coligação liderada pela Arábia Saudita, que apoia o governo, contra os rebeldes  huthis apoiados pelo Irão.

Devido à corrosão, o navio ameaça quebrar-se, explodir ou incendiar-se e provocar uma maré negra sem precedentes no Mar Vermelho e uma catástrofe ambiental, económica e humanitária eminente, alertou a ONU esta quarta-feira (15/07).

O Conselho de Segurança publicou um comunicado aprovado por unanimidade, no qual  manifesta a sua preocupação, no qual se pode ler "os membros do Conselho de Segurança exprimiram a sua profunda preocupação, face ao risco eminente de que o petroleiro Safer possa quebrar-se ou explodir, provocando uma catástrofe ambiental, económica para o Iémen e seus vizinhos" e apela os huthis a "traduzirem o seu compromisso em acções concretas, o mais breve possível".

Até então e desde 1987, o petroleiro Safer servia de reservatório flutuante ao petróleo, encaminhado para um pipe line submarino, mas desde 2015, nenhuma operação de manutenção foi efectuada e a corrosão ataca o navio, sendo que a 27 de maio foi encontrada água do mar na sala das máquinas e foi colmatada uma fuga num tubo do circuito de arrefecimento e o navio degrada-se de dia para dia, aumentando as possibilidades de fuga de petróleo, provocando uma maré negra que pode atingir o Golfo de Aden e ao Mar da Arábia.

O petroleiro está ancorado ao largo do porto de Hodeida, no oeste do Iémen, um território controlado pelos rebeldes huthis, apoiados pelo Irão, que a 12 de julho aceitaram "em princípio" que peritos internacionais façam o diagnóstico do navio.

Em junho, os huthis tinham exigido garantias de que o navio fosse reparado e o valor do petróleo a bordo - 40 milhões de dólares - servisse para pagar os salários dos empregados huthis, mas na semana passada o governo iemenita retorquiu que este valor deveria ser aplicado na saúde da população do país, que vive a pior crise humanitária no mundo, segundo a ONU.

A ameaça é tão grande que o Conselho de Segurança da ONU se reuniu esta quarta-feira (15/05) à porta fechada sobre esta questão a pedido do Reino Unido e o actual presidente do orgão, o alemão Christoph Heusgen, afirmou congratular-se com o anúncio dos huthis em aceitarem o acesso ao navio de peritos internacionais, mas advertiu que esperava mais garantias de segurança.

«Precisamos de autorizações de entrada no território e de acesso ao petroleiro, para que os peritos técnicos das Nações Unidas possam avaliar o estado do navio e eventualmente proceder a reparações urgentes e fazer recomendações para a extracção do petróleo em condições de segurança e garantir uma estricta colaboração com a ONU».

O Conselho de Segurança enviou uma mensagem na terça-feira (14/07) ao rebeldes huthis pedindo detalhes sobre a missao e aguarda resposta, mas é prudente, dado que em 2019 os rebeldes huthis se retractaram na véspera de uma operação autorizada e impediram o acesso a peritos da ONU vindos de Djibuti.

Entretanto nenhuma data foi ainda avançada para a inspecção dos peritos da ONU, enquanto o secretário de Estado norte-americano Mike Pompeo advertiu recentemente que "os huthis devem permitir o acesso aos peritos, antes desta bomba relógio explodir e devastar o ecosistema do Mar Vermelho".

População negra do Iémen desesperada

Com em pano de fundo o movimento "Black lifes matter" a minoria iemenita negra, chamada "Mouhamachoun" o que significa literalmente "marginalizados", é quotidianamente insultada de população "escrava" e de "criados".

Em tempos de guerra civil, os negros iemenitas que representam entre 2% e 10% dos 23 milhões de iemenitas, são ainda mais discriminados, porque vivem fora do sistema tribal, pilar essencial da sociedade iemenita e escudo protector dos seus membros, o que acentua a sua vulnerabilidade, apesar de possuirem cartões de identidade iémenita.

A ONU enumeras as dificuldades desta franja da população: más condições de vida, falta de acesso a serviços básicos como a água, saneamento e deucação, desemprego, trabalhos subalternos como recolha de lixo ou trabalhos de limpeza.

Há controvérsia sobre as origens étnicas desta população iemenita negra, alguns afirmam que são descendentes de escravos africanos ou de soldados etíopes no século XV, outros afirmam que são de origem iemenita.

 

 

 

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