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“Sei que o Líbano se vai reerguer”

Áudio 08:52
Beirute. 7 de Agosto de 2020.
Beirute. 7 de Agosto de 2020. AFP - -
Por: Carina Branco
23 min

Rita Dieb vive em Beirute e conta que os residentes estão todos enlutados pelas explosões que destruíram a cidade na terça-feira. A advogada bissau-guineense, portuguesa e libanesa descreve que a ida do presidente francês ao Líbano foi vista como “um amparo”, assim como as promessas de ajuda que ele deixou. Rita Dieb diz que não sabe como o Líbano se vai reerguer, mas tem a certeza que “se vai reerguer”.

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“Como é que se vai reerguer não sei, mas sei que se vai reerguer. Beirute já foi destruída 7 ou 9 vezes e sempre se reconstruiu. Cada vez que se reconstrói, vai-se reconstruindo sempre de uma forma muito mais bonita, muito mais impactante. Tudo isto porque o sangue dos libaneses está no chão e, desta vez, infelizmente também é a mesma situação. O sangue do povo libanês está ali, está em todo o Líbano e, com certeza que, só isso, pelo menos, nos vai dar a força de nos reerguermos de novo”, começa por afirmar Rita Dieb.

Nascida na Guiné-Bissau, Rita Dieb mudou-se com os pais libaneses para o Líbano quando tinha cinco anos, mas a guerra rebentou dois meses depois. Foram então para Portugal, onde cresceu e se tornou advogada. Em 2003, voltou para Beirute.

Beirute vai ser reconstruída e ainda vai ser muito mais bonita, muito mais charmosa e queira Deus que voltemos a ser a Suíça do Médio Oriente. Eu acho que é isso que faz confusão a muita gente aqui há volta. É precisamente esse poder de reerguer e essa força que o povo libanês tem.

Regressar a Portugal depois das explosões de 4 de Agosto de 2020 que devastaram Beirute não é, para já, uma opção: “Quero fazer parte deste reerguer do Líbano e deste reerguer de Beirute.

A ida do Presidente francês, Emmanuel Macron, a Beirute, dois dias depois das explosões, e o anúncio de uma conferência internacional de ajuda para o Líbano suscitaram muita esperança no país, conta Rita Dieb.

Sabe quando você está numa situação em que precisa assim só de um apoio, uma palavra amiga, um abraço? Isto é um povo que está todo enlutado. É um povo que já foi e continua a ser extremamente fustigado e precisávamos precisamente que alguém nos desse só assim um amparo. Posso-lhe dizer que - na opinião de grande parte dos libaneses - sentimos isso por parte do senhor Presidente francês. O que esperamos é que efectivamente ele cumpra aquilo que disse (…) E acima de tudo que nos ajude a mudar a situação que aqui está porque se fizermos uma reconstrução com isto assim, vamos voltar a cair nos mesmos erros do passado. Tem que haver uma reconstrução desde a estrutura”, considera.

Os protestos voltaram na quinta-feira à noite às ruas, à imagem da revolta popular que fez cair o anterior primeiro-ministro em Novembro. Será que as novas manifestações vão fazer cair o novo chefe de Governo e fazer tremer um regime político largamente visto como corrupto pela população? “Espero que sim, mas não sei se será possível”, responde.

O Presidente francês, Emmanuel Macron, prometeu uma conferência de ajuda internacional para o Líbano, que vai acontecer este domingo por videoconferência, mas muitos se questionam se o dinheiro angariado não será desviado. Para o evitar, as ajudas deveriam ser entregues directamente às instituições e não passar por organismos públicos ou governamentais, considera Rita Dieb.

As explosões provocaram, pelo menos, 154 vítimas mortais (até esta sexta-feira), cerca de 5.000 feridos e 300.000 pessoas ficaram sem casa. Perante isto, resta a solidariedade.

O povo libanês é um povo com um coração muito grande e com uma solidariedade e um poder de união quando necessário – quisesse Deus que fosse sempre assim. Nestas alturas, as mãos unem-se, os corações tornam-se um só e há grandes redes de solidariedade, as pessoas abriram as suas casas, os hotéis estão a oferecer estadia a quem necessite, esteja na rua e tenha perdido a casa. Os particulares também abriram as suas casas. A título do governo, o que é que já foi feito nesse sentido, muito sinceramente eu ainda não tenho conhecimento.”

Sobre o que aconteceu na terça-feira, Rita Dieb sublinha que “o povo libanês merece uma resposta”. "É isto que nos revolta e que receamos: será que vamos ter a versão verdadeira dos factos? O que é que despoletou a explosão? E o que é que estão a fazer 2500 toneladas ou mais de nitrato de amónio no Porto de Beirute?  Parece-me que como fertilizante é fertilizante a mais para um país pequeno como o Líbano. O que é que está um produto explosivo como este a fazer desde 2014 no porto de Beirute?”, questiona.

Esta sexta-feira, o Presidente libanês, Michel Aoun, afirmou que as explosões foram causadas pela “negligência ou por uma intervenção exterior” e evocou a hipótese de um míssil.

Convidada Rita Diep

 

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