Lesbos/Refugiados

Tensão crescente em Lesbos, autoridades preparam novo campo de migrantes

Requerentes de asilo desalojados na ilha grega de Lesbos manifestam para exigir abrigo, após incêndio que destruiu o campo de refugiados de Moria.
Requerentes de asilo desalojados na ilha grega de Lesbos manifestam para exigir abrigo, após incêndio que destruiu o campo de refugiados de Moria. REUTERS/Alkis Konstantinidis

A tensão é cada vez maior na ilha grega de Lesbos, onde a polícia usou, este sábado, gás lacrimogéneo contra requerentes de asilo que protestavam por passar a quarta noite consecutiva a céu aberto, depois de o campo de migrantes de Moria, onde viviam em condições insalubres, ter sido destruído por incêndios na madrugada de quarta-feira. 

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Nas últimas três noites, milhares de migrantes, incluindo bebés e crianças, estão a dormir ao ar livre e os esforços, dentro e fora da Grécia, para encontrar um abrigo temporário para mais de cerca de 13.000 pessoas ainda não apresentaram resultados.

A voluntária portuguesa da Fénix Humanitarian Legal Aid em Lesbos, Inês Avelãs, descreve a situação na ilha grega; "tínhamos informações interiores de que já tinha sido usado gás lacrimogéneo. Ontem, houve um grande protesto pacífico. Hoje, pelo contrário, ainda não se percebeu o que é que aconteceu. Sabemos que foi usado gás lacrimogéneo contra um grande número de requerentes de asilo e refugiados".

Volutária portuguesa da Fénix Humanitarian Legal Aid, Inês Avelãs, descreve a violência da polícia em Lesbos

Este sábado registaram-se confrontos entre a polícia e migrantes perto do local onde as autoridades gregas preparam tendas para receber as pessoas mais vulneráveis. 

A polícia grega respondeu com gás lacrimogéneo em resposta a migrantes, a maioria jovens, que se manifestavam contra os agentes.

"Liberdade" e "Queremos sair de Moria", foram os gritos de ordem. "Estávamos a protestar de forma pacífica contra este novo campo e a polícia usou gás. Entrou gás nos olhos do meu bebé", denunciou à agência francesa AFP uma congolesa, mãe de uma criança de cinco meses."Em Moria nós conseguíamos entrar e sair, mas este campo vai ser como uma prisão", completou.

Na capital da ilha, em Mitilini, as autoridades não estão a deixar as pessoas sair da área à volta do campo, e as pessoas concentram-se em campos e estradas. O exército grego está a construir um campo de emergência, mas "esta é apenas uma solução temporária", aponta a voluntária portuguesa da Fénix Humanitárian Ligel Aid, em Lesbos. Inês Avelãs defende que reconstruir o campo de Moria representa "dar um passo para trás".

O ministro grego das Migrações, Notis Mitarachi, afirmou que o novo campo provisório deve abrir nas próximas horas e terá capacidade para 3.000 pessoas. "Serão organizados testes rápidos de coronavírus na entrada", afirmou.

"Nos dias subsequentes ao primeiro incêndio, houve vários incêndios que acabaram por queimar ainda mais do que já tinha sido queimado (na quarta-feira). Hoje tivemos a informação de que o governo grego e o Alto Comissariados das Nações Unidas para os Refugiados começaram a construir um campo de emergência, mas não sabemos para quantas pessoas", avança a voluntária Inês Avelãs.

"Pelas imagens divulgadas e pelo governo grego parece bastante limitado para a quantidade de pessoas que se encontram desalojadas. Temos uma confirmação de que os menores acompanhados vão ser recolocados fora da ilha e todas as outras pessoas ficarão cá. O que se espera que aconteça é que haja um acolhimento urgente temporário e, posteriormente com apoio da União Europeia, seja construído o campo de Moria, o que representa um passo para trás", descreveu.

Volutária portuguesa da Fénix Humanitarian Legal Aid, Inês Avelãs, defende que reconstruir o campo de Moria é dar "um passo para trás"

Alguns migrantes foram levados para o hospital, apresentavam sinais de problemas respiratórios após inalação de gás lacrimogéneo. Enquanto milhares de pessoas dormem nas colinas perto de Moria ou nas ruas, a tensão aumenta entre os moradores locais, os requerentes de asilo e a polícia, lamenta a voluntária portuguesa.

O campo de Moria, praticamente reduzido a cinzas, abrigava perto de 13.000 migrantes, a maioria proveniente do Afeganistão, Síria, Congo e Irão. O primeiro incêndio deflagrou após 35 pessoas testarem positivo para o novo coronavirus e consequente imposição de novas medidas de isolamento, como a proibição de saída do campo.

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