Irão/Israel/Tensão

Irão ameaça represálias contra Israel que acusa de assassínio "remoto" de cientista nuclear

Funeral do cientista nuclear iraniano Mohsen Fakhrizadeh, assassinado numa emboscada perto de Teerão a 27 de novembro, o Irão acusa Israel e ameaça ripostar.
Funeral do cientista nuclear iraniano Mohsen Fakhrizadeh, assassinado numa emboscada perto de Teerão a 27 de novembro, o Irão acusa Israel e ameaça ripostar. © Iranian Defense Ministry via AP

Teve lugar esta segunda-feira, 30 de novembro, em Teerão o funeral do cientista nuclear iraniano Mohsen Fakhrizadeh, que segundo as autoridades foi assassinado "remotamente" por Israel, na passada sexta-feira, 27 de novembro, Israel ainda não reagiu, mas o Irão acusa este país de "semear o caos" e promete retaliar "em tempo oportuno".

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Mohsen Fakhrizadeh, apresentado pelo Irão como director do departamento de pesquisa e inovação e responsável pela "defesa antiatómica", entre outras funções, foi segundo Israel e a maioria dos países ocidentais, quem liderou o antigo programa militar nuclear secreto do Irão - sempre negado - e foi morto na sexta-feira, 27 de novembro, numa emboscada perto de Teerão.

Os iranianos responsabilizam Israel pelo assassínio, efectuado de forma remota, com "aparelhos electrónicos" e garantem que o país vai "ripostar em devido tempo", mas não vai cair na "armadilha" preparada por Israel.

O funeral digno dos maiores mártires do país, teve lugar esta segunda-feira, 30 de novembro, no Ministério da Defesa, em Teerão e foi transmitido pela televisão pública, com um público limitado, constituído principalmente por militares e ao ar livre, de forma a respeitar os protocolos sanitários em vigor contra o novo coronavírus.

Se os nossos inimigos não tivessem cometido este crime ignóbil e derramado o sangue do nosso querido mártir, ele poderia ter permanecido desconhecido”, disse em lágrimas o ministro da Defesa, general Amir Hatami.

Mas hoje, aquele que até então era apenas um ídolo dos seus alunos e colegas, revela-se para todo o mundo” e é uma “primeira derrota para os inimigos”, acrescentou Hatami.

Os seus restos mortais estiveram em câmara ardente, no sábado e no domingo, 28 e 29 de novembro, em dois dos principais locais sagrados xiitas do Irão - Mashhad e Qom- antes da homenagem que decorreu no mausoléu do imã Khomeini em Teerão, assim como ocorreu com o funeral do general iraniano Qassem Soleimani, assassinado no Iraque em janeiro.

Numa declaração à televisão estatal durante o funeral, o secretário do Supremo Conselho de Segurança Nacional, Ali Shamkhani, disse que o assassínio foi cometido por Israel remotamente, com recurso a “aparelhos electrónicos”.

Foi somente após a morte de Fakhrizadeh que o general Hatami revelou que este cientista era um dos seus vice-ministros e chefe da Organização de Investigação e Inovação de Defesa, ressaltando que Fakhrizadeh fez “um trabalho considerável” na área da “defesa atómica”.

A oração fúnebre foi conduzida por Ziaoddine Aqajanpour, representante do líder supremo iraniano Ali Khamenei que frisou "seremos pacientes perante esses desastres, vamos resistir, mas a nossa nação exige numa só voz uma riposta decisiva” contra os responsáveis pela morte de Mohsen Fakhrizadeh.

O caixão do cientista foi depositado em Imamzadeh-Saleh, um importante santuário xiita no norte de Teerão, onde estão enterrados dois outros cientistas assassinados em 2010 e 2011.

O ministro dos Negócios Estrangeiros do Irão, Mohamad Javad Zarif, exortou no domingo a comunidade internacional a condenar o assassínio de Fakhrizadeh, considerando “vergonhoso” que se tenham limitado a apelar à calma.

No sábado, 28 de novembro, a União Europeia classificou o assassínio de “acto criminoso” e pediu “que todas as partes permaneçam calmas e exerçam o máximo de contenção, para evitar uma escalada que não pode interessar a ninguém”.

Na mesma linha, a ONU afirmou "condenar qualquer homicídio ou execução extrajudicial” e pediu “moderação”.

Zarif considerou, contudo, noutra mensagem que o ataque a Fajrizadeh “foi sem dúvida projectado e planeado por um regime terrorista e executado por cúmplices de criminosos”.

É vergonhoso que alguns se recusem a opor-se ao terrorismo e se escondam atrás de pedidos de moderação”, disse Zarif.

Em Israel, as autoridades recusaram-se a comentar as acusações do Irão, mas alertaram as suas embaixadas, temendo ataques retaliatórios de represálias.

O assassínio do cientista só foi fortemente condenado por grupos e países aliados ou próximos ao Irão, como o grupo Hamas, o grupo Hezbollah, a Síria, a Turquia, o Qatar e outros.

O Irão sempre negou ter um programa secreto para desenvolver a bomba atómica e defende que o seu programa nuclear é civil e pacífico.

Entretanto à margem deste assassínio, o parlamento iraniano pediu vingança pela morte do cientista neste domingo, 29 de novembro, e aprovou um texto que autoriza o Irão a impedir a inspecção das suas instalações nucleares pela Agência Internacional de Energia Atómica - AIEA.

O presidente do parlamento, Mohammad-Bagher Ghalibaf, pediu neste domingo "uma forte reacção" que assegure "dissuasão e vingança" e afirma que a melhor resposta aos actos de "terrorismo e sabotagem" de Israel, Estados Unidos e seus aliados é "reviver a gloriosa indústria nuclear do Irão" e deixar de aplicar o protocolo adicional da AIEA.

Estados Unidos/Irão/AIEA

Desde o anúncio da vitória de Joe Biden nas eleições presidenciais americanas, o Presidente Rohani multiplicou os sinais de abertura, que mostram sua vontade de salvar o que for possível do acordo nuclear.

Este pacto internacional oferece a Teerão uma flexibilização das sanções internacionais em troca de garantias, verificadas pela AIEA, que certifiquem o caráter exclusivamente pacífico de seu programa nuclear.

O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, retirou seu país de maneira unilateral do acordo em 2018, três anos depois da conclusão do acordo em Viena, contra o qual o primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu, continuou a lutar.

As sanções impostas por Washington levaram a economia iraniana a uma dura recessão e o país suspendeu o cumprimento da maioria de seus compromissos, mas não o acesso aos inspectores da AIEA às suas instalações nucleares.

Joe Biden afirmou que deseja o retorno dos Estados Unidos ao acordo de Viena, mas terá pouco tempo entre a sua investidura a 20 de janeiro, e as eleições presidenciais iranianas, a 18 de junho, nas quais os conservadores são favoritos, após sua grande vitória nas legislativas de fevereiro, derrotando a aliança de moderados e reformistas que apoiam o Presidente Rohani.

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